Num país que enfrenta um cotidiano de dificuldades sem fim, o catador de material reciclável Luciano Macedo, 27 anos, nos mostrou que é possível tentar fazer a coisa certa mesmo numa hora terrível, entre 83 tiros de Guadalupe. Em vez de se esconder e até fugir, reações prováveis num cenário de tamanha violência, Luciano fez o necessário — ajudar as vítimas. Apanhou a criança de 7 anos que se encontrava a bordo do Ford Ka branco e conseguiu levá-la para longe.
Também tentou socorrer Evaldo Rosa, o cavaquinho fuzilado logo no início do massacre, mas era tarde demais. Luciano foi morto com três tiros no peito — região própria para execuções, incomum no caso de mortes acidentais. O sangue escorreu pelo seu corpo, encobrindo uma tatuagem com o nome da mãe, Aparecida, uma senhora combativa que não foi ao velório do filho para fazer figuração: “o Exército matou meu filho”, disse para o país inteiro ouvir.
Quando perguntaram à mãe Aparecida por que o filho era “daquele jeito”, ela respondeu com verdades que ninguém gosta de ouvir — recordam a responsabilidade de todos e de cada um — dizendo que nunca lhe deram emprego nem uma boa escola.
Considerando o lugar central que o destino de Lula ocupa no atual momento político brasileiro, não deixa de ser curioso recordar que ele ajudou o Brasil a reconhecer a dignidade de homens e mulheres que lutam pela sobrevivência submersos no lixo de nossas cidades grandes e desiguais. Lula fazia questão de estar em sua companhia às vésperas do Natal. Ficava emocionado e chorava sempre. Era uma demonstração daquela solidariedade que atravessa preconceitos e derruba atitudes mesquinhas, a começar pelo costume sempre confortável de responsabilizar os miseráveis pela própria miséria.
Autor de reflexões essenciais sobre o cotidiano da Alemanha nazista, Bertolt Brecht deixou um pensamento conhecido: “Infeliz é o povo que necessita de heróis”.A importância dessa visão é lembrar que o povo de cada país é o sujeito de sua história, num processo coletivo que permite avanços e recuos em toda tentativa de resistência e mudança política.
Mas, em algumas conjunturas, como no Brasil de abril de 2019, quando o poder de Estado utiliza soldados capazes de atirar a esmo na direção de uma família a caminho de um chá de bebê no domingo à tarde, a reação de indivíduos capazes de colocar a solidariedade acima da própria vida assume uma importância incomum. Recorda a atualidade de valores de peso histórico (solidariedade é o nome atualizado da “Fraternidade” que os franceses ensinaram ao mundo a partir de 1789), que não podem ser esquecidos.
Personagem do degrau mais baixo da desigualdade brasileira, Luciano Macedo perdeu a vida e deixou um filho que nascerá órfão. Entre atiradores irresponsáveis e familiares em compreensível desespero, sua atitude deixou um raro momento de dignidade que o país tem o dever de celebrar.
Sempre que se falar de uma tragédia que envergonhará o país pela eternidade, será preciso lembrar a reação corajosa de um cidadão que não tinha endereço fixo, nem casa para morar nem um prato de comida quente para saciar a fome — e mesmo assim entrou na linha de tiro de uma patrulha do Exército para ajudar quem estava estava em dificuldade.
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