Cidadão não. Hipócrita sim

Quando um pobre ou um menos favorecido, observa o tratamento que a Polícia lhe dispensa durante uma abordagem, em comparação ao tratamento dado a pessoas de classe social mais elevada, ele conclui que se fosse igual aquelas pessoas, não seria desrespeitado e nem teria sua liberdade violada de forma tão arbitrária

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Quando a hipocrisia se torna uma virtude? Quando muitos cidadãos que pensam da mesma forma que a mulher que ofendeu a um agente da vigilância sanitária, conforme matéria exibida pelo “Fantástico”, manifestam indignação nas redes sociais, repudiando o "melhor do que você" que ela usou para classificar o seu marido Engenheiro Civil, como superior ao agente. Caríssimos, quem tem uma percepção mais aflorada das coisas, não se engana com discurso de redes sociais, onde quase todo mundo consegue se passar por bom, honesto, empático, solidário, altruísta, igualitário e o escambau de Zuckerberg. Quem não te conhece que te compre, né minha filha(o)?

Nossa sociedade foi estruturada sob títulos, status e estereótipos. Todo aquele que não esteja naturalmente inserido ou que não consiga inserir-se nesse contexto, acaba por se tornar, de alguma forma, vítima dessa estrutura. A atitude da cidadã que tentou desqualificar o agente, que pelo que foi constatado posteriormente, tem uma formação acadêmica “melhor” do que o Engenheiro Civil que tentou humilhá-lo, reflete o sentimento do oprimido que sempre sonhou em ser um opressor, porque o sistema sempre lhe mostrou aqueles que oprimem, como referência de poder e superioridade. Nesse caso, a educação recebida, ainda que a nível superior, não foi libertadora. E, socialmente falando, a opressão sistêmica pode deixar marcas no inconsciente do cidadão. Tanto do “cidadão não”, quanto do “cidadão sim”.

Quando um pobre ou um menos favorecido, observa o tratamento que a Polícia lhe dispensa durante uma abordagem, em comparação ao tratamento dado a pessoas de classe social mais elevada, ele conclui que se fosse igual aquelas pessoas, não seria desrespeitado e nem teria sua liberdade violada de forma tão arbitrária. E passa a ter ainda mais certeza disso, quando ele vê um morador de Alphaville chamando um Policial Militar de “bosta” e “merda de PM”, não ser repreendido sob a lei do cassetete e da bala de borracha, como ele teria sido se falasse com o Policial da mesma forma. Passando ele por uma mudança de perfil social, as chances desse oprimido reproduzir com outras pessoas o tratamento que sempre recebeu quando era considerado à “margem”, serão grandes.

Justamente, porque a educação da forma como foi idealizada pelo sistema, também é opressora e visava atribuir muito mais superioridade social e intelectual, do que qualificação profissional, moral e humana. Quantos pais já não disseram a seus filhos para estudarem, se não eles seriam Garis, obradores de ônibus, atendentes do Mc Donalds, ou qualquer outra função que o sistema definiu como subalterna? Isso não é uma forma de dizer que esses trabalhadores são inferiores? Quem não se lembra da fala do Jornalista Boris Casoy, que sem saber que estava sendo filmado, zombou de um Gari que desejava “Feliz Ano Novo” a todos, classificando o profissional como sendo “o mais baixo na escala de trabalho” e sugerindo que em função de sua qualificação, ele não poderia desejar felicidades a ninguém, porque ele não podia ser feliz fazendo o que faz.

Esse tipo de educação não liberta. Pelo contrário, aprisiona e se torna uma fábrica de “cidadãos não” que serão inseridos na sociedade para perpetuarem a opressão social. Certa vez estava na fila do banco e ouvia a conversa entre dois cidadãos. Pela dificuldade que ambos tinham para concordar o verbo com o sujeito, percebia-se que não eram Engenheiros Civis, como o marido da cidadã que ofendeu o Agente sanitário. No entanto, o discurso era pontuado pela mentalidade da educação opressora que ainda nos rege. Um disse que sempre falava para o filho estudar, porque senão ele só teria emprego ruim, carro ruim e mulher feia. No que outro respondeu que falava o mesmo para o filho dele. Assimilaram com sucesso a ideologia que deu origem à estrutura social que temos e trabalham inconscientemente para a sua manutenção, mesmo tendo sido prejudicados por ela.

Valores invertidos acabam sendo agregados ao nosso currículo, em função da educação não libertadora que sempre recebemos. Paulo Freire abordou com propriedade esse tema e o ex Ministro Decotelli, que na verdade não chegou a ser Ministro da Educação, pode ser usado como exemplo prático da necessidade de possuir títulos, ainda que inexistentes, para poder se impor sobre os demais. É a natividade da essência colonizadora e imperialista, enraizada na nossa cultura. Talvez, por esse motivo, a educação nos governos do PT tenha incomodado tanto à elite e à classe média mentalmente elitizada. Sentiram-se ameaçados por uma nova conjuntura social baseada na inclusão, que faria com que os “títulos” que sempre ostentaram com orgulho, porque sempre foram destinados a uns poucos, fossem “banalizados” ao serem entregues ao filho do pedreiro e da empregada doméstica.

Que vantagem eles teriam, se o preto ou o pobre favelado também pudesse vir a ser um Engenheiro Civil? Como já disse Danuza Leão: “Ir a Nova York já teve sua graça. Mas agora, o porteiro do prédio também pode ir. Então, qual a graça?” A graça a qual Danuza se referia em um de seus artigos para O Globo, é o distanciamento econômico e social que a estrutura sempre a proporcionou e a permitiu manter-se em superioridade. Como todo “Cidadão não” que se preze, ela precisa que a desigualdade e a injustiça social se perpetuem, para que ela mantenha o seu status quo. Se não tiver mais ninguém para servir de tapete, em quem eles iriam pisar? Por isso, fora Lula! Fora PT! Fora políticas afirmativas e inclusivas. Precisamos de um mito que odeie pobre e os recoloque e os mantenham no lugar destinado histórica e estruturalmente a eles.

Ao iniciar este texto questionando a sinceridade de alguns que se fizeram solidários ao agente e contrários à “cidadã não”, propus uma reflexão. Será que nenhum desses críticos, por um momento que seja, nunca pensou como ela? Pode ser que não tenham verbalizado o pensamento, mas o que vale é a intenção. Não se culpem! Porém, se libertem! A verdadeira educação é crítica e transformadora. E não mantenedora de uma estrutura injusta e desigual que submete a maioria, à uma minoria privilegiada e ostentadora de títulos. Cidadãos sim. Hipócritas não.

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