Ciro luta contra sua própria biografia

O problema é que Ciro Gomes talvez não se dê conta de que quem passa a vida inteira lutando contra a própria biografia corre o risco de acabar nocauteado por ela, diz o colunista Fúlvio Giannela Júnior

PT e PSB se unem e isolam Ciro
PT e PSB se unem e isolam Ciro (Foto: REUTERS/Sergio Moraes)
Siga o Brasil 247 no Google News Assine a Newsletter 247

Ao ofender com sua habitual agressividade verbal os portais DCM e 247 e seus colaboradores, Ciro Gomes não deixou de ser fiel a si mesmo, o que não indica necessariamente uma virtude. Talvez seja mais uma prova – a enésima - de um sério transtorno de personalidade. Não sei dizer qual. Deixo a tarefa a psicólogos e psiquiatras que sabem dar nome preciso a fenômenos patológicos da mente humana. Apenas constato que deve haver algo de errado com alguém que passa a vida renegando o próprio passado e parecendo querer, com a virulência com que ataca seus antigos aliados, apagar as próprias pegadas.

Muito longe de traçar a biografia de Ciro Gomes, pretendo apenas, com algumas rápidas pinceladas, esboçar o perfil do personagem. Certamente cada um poderá, agregando outros episódios semelhantes, contribuir para dar mais nitidez à imagem formada no quadro.

Ciro Gomes nasceu para a política no PDS, agremiação extraída da ARENA, partido de sustentação do regime militar e partícipe direto de todas as atrocidades cometidas no período. No entanto, Ciro, na época protegido pelas conveniências daqueles que diziam amém aos atos discricionários do governo autoritário, hoje critica a ditadura como se fosse um resistente de primeira hora e tivesse colocado a própria vida em risco.

Mais adiante, uma vez no PSDB, pertenceu ao núcleo duro do partido, estando muito próximo de Fernando Henrique Cardoso. Tanto que, quando este saiu candidato à Presidência da República, foi Ciro o escolhido, como ministro da Economia, para cuidar do principal cabo eleitoral de seu antecessor: o Plano Real. No entanto, tempos depois, passou a falar cobras e lagartos do PSDB e do próprio FHC, para cuja eleição contribuiu diretamente.

Uma vez eleito Lula à Presidência da República, Ciro Gomes passou boa parte dos dois mandatos deste como ministro, tecendo largos elogios ao petista e colocando-se à frente da tropa de choque que defendia o presidente dos ataques da oposição, sobretudo aqueles vindos dos tucanos, seus ex-companheiros no antigo ninho peessedebista transformados agora em inimigos figadais.

Veio a prisão de Lula, no bojo de um processo de exceção que o próprio Ciro, em certo momento, insinuou que não deveria ser respeitado. Tanto que, se preciso fosse, ajudaria a impedir à força o ex-presidente de ser posto no cárcere. Mas não demorou muito para que Ciro Gomes, fiel à sua trajetória, se voltasse furiosamente contra Lula e o PT, a ponto de colaborar, com sua omissão, para a vitória de Jair Bolsonaro, comprometendo-se dessa forma, mesmo que passivamente, com o descalabro em que se encontra hoje o Brasil.

Agora, mais uma vez, ao exercitar sua truculência contra órgãos de comunicação de esquerda, com os quais já colaborou, Ciro se mantém fiel à trajetória de atacar antigos companheiros na tentativa de romper com o passado e embaçar a própria história. Junte-se a tudo isso ainda o fato de já ter flanado por um número incontável de legendas partidárias, divorciando-se rapidamente de todas elas.

O problema é que Ciro Gomes talvez não se dê conta de que quem passa a vida inteira lutando contra a própria biografia corre o risco de acabar nocauteado por ela.

Participe da campanha de assinaturas solidárias do Brasil 247. Saiba mais.

Comentários

Os comentários aqui postados expressam a opinião dos seus autores, responsáveis por seu teor, e não do 247