Coletivo João Cândido: 'Chacina do Jacarezinho é prática regular das forças repressivas' (vídeo)

O coordenador do coletivo de negros João Cândido e dirigente do PCO, Juliano Lopes, afirmou que "a comunidade e o povo trabalhador tem o direito legítimo e democrático de reagir à altura diante dos ataques cometidos pela polícia"

Juliano Lopes
Juliano Lopes (Foto: Reprodução)
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Por Juca Simonard

“A gente precisa se organizar para lutar pelo direito de autodefesa das comunidades pobres”, afirmou o coordenador do coletivo de negros João Cândido e dirigente do PCO, Juliano Lopes, durante ato em São Paulo, no sábado, 8, contra a Chacina do Jacarezinho.

“A comunidade e o povo trabalhador tem o direito legítimo e democrático de reagir à altura diante dos ataques cometidos pela polícia”, emendou. “Nesse sentido, toda a reação violenta é legítima contra os órgãos de repressão que estão matando a população pobre nos becos, nas favelas e nas ruas”.

A declaração destoou do restante das organizações de esquerda que estiveram presentes no ato. Na maioria dos casos, além de importantes denúncias que foram feitas, os movimentos e partidos presentes faziam apelos emocionais, como “parem de nos matar”, ou imitavam a luta nos Estados Unidos, com “vidas negras importam”. 

Os gritos revelam que boa parte da esquerda carece de um programa para combater a política, cada vez mais recorrente, de chacina da classe operária brasileira, de maioria negra. Os que têm alguma reivindicação, pedem “justiça” e a “desmilitarização” da Polícia Militar.

Ilusões na "Justiça"

No primeiro caso, Juliano Lopes tratou de esclarecer o problema: “A Justiça é o Sergio Moro. A Justiça arquivou os processos do Carandiru, vai arquivar os de Osasco, vai arquivar os da Candelária. O policial que mais mata é promovido”.

A Justiça, desta forma, é um instrumento do Estado para garantir a política da burguesia, de extermínio da população pobre. Geralmente, quando ocorre alguma forma de punição a agentes da repressão, que seriam promovidos pela matança, é resultado de uma intensa mobilização popular.

Mas, mesmo assim, pegando o caso dos Estados Unidos. Se por um lado as manifestações mostraram de qual forma se luta contra a repressão - com organizações nos bairros operários e fazendo uso da violência se for preciso -, elas também mostraram o que não fazer em relação ao programa a ser defendido.

“Justiça para George Floyd” levou ao aprisionamento de apenas um policial, Derek Chauvin, enquanto salvou a pele de toda a corporação e dos chefes da unidade que sufocou o cidadão. Da mesma forma, mesmo com “Justiça”, o que observamos após o caso Floyd foi uma onda de casos de repressão policial, levando ao assassinato de diversas pessoas negras. Assim, a “Justiça” é um ouro de tolo usado para tentar estancar a luta contra a repressão.

"Desmilitarização da PM"

A reivindicação pela “desmilitarização” é confusa, mas na maioria dos casos é associada ao fim da Polícia Militar. Seria já um avanço acabar com esse órgão exclusivo do Brasil e resquício da ditadura, mas não resolve a questão do banho de sangue promovido pelo Estado.

No início de sua fala, Lopes destacou: “os autores da chacina fazem parte da Polícia Civil, e não da militar, o que mostra que a polícia precisa ser dissolvida de cabo a rabo. Não basta só o fim da Polícia Militar, mas o fim de todos os órgãos repressivos, que são eles que promovem essa matança na periferia”.

Nesse sentido, o caso do Jacarezinho é esclarecedor, pois não foi a PM que invadiu a favela e executou a sangue frio 27 pessoas. Foi a Polícia Civil. Do que adianta, então, dissolver a PM e manter vigente um órgão tão assassino quanto?

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Programa de reivindicações

Os casos nos EUA mostram que não basta se mobilizar contra a repressão. Lá, os protestos, com razão, foram violentos, explosivos e combativos, mas as organizações dirigentes, tanto do movimento negro, quanto dos partidos de esquerda, não tinham um programa objetivo de reivindicações.

Por isso, é necessário colocar em discussão um programa real para acompanhar as manifestações que tendem a crescer no Brasil.

Primeiro, unificar a luta contra a repressão na luta geral contra o golpe de Estado. Junto com “Fora Bolsonaro e todos os golpistas”, a luta pelos direitos políticos de Lula, contra o desemprego e a fome, e pela quebra das patentes da vacina para imunizar em massa a população contra a Covid-19 e barrar o genocídio sanitário.

Dissolução da polícia

Segundo, na questão da repressão, é fundamental colocar a dissolução de toda a polícia. Conforme disse o dirigente do coletivo de negro João Cândido, “o que aconteceu no Jacarezinho não foi um acidente, não se trata de um desvio de conduta, mas é a prática regular, orientada pelas forças de repressão do Estado”.

A polícia é um órgão da burocracia estatal para reprimir a população pobre, isto é, impor um controle sobre o povo para manter o regime de ataques contra os trabalhadores. É um órgão vindo de cima, cujos agentes não têm nenhum vínculo com os bairros onde promovem banhos de sangue.

A reivindicação mais democrática, nesse sentido, é a substituição dos órgãos de repressão estatal por milícias organizadas por bairros, aldeias e assentamentos, eleitas pela população. Quem se coloca contra isso tem um profundo preconceito contra a capacidade do povo de se organizar e tem profundas ilusões na “Democracia”. Não pode ser considerado socialista e muito menos democrático (no real sentido da palavra).

Para estes, devemos lembrar incansavelmente que nas favelas brasileiras os bairros, do saneamento às casas, foram construídos pelos próprios moradores, com os recursos precários e escassos disponíveis. Portanto, o povo é amplamente capaz de se organizar em defesa de seus interesses.

Essa questão, no entanto, não resolve em absoluto o problema da repressão, pois a direita, organizada regionalmente, irá, sem dúvidas, influir em tal processo eletivo. Mas, pelo menos, ameniza a situação, dando mais controle popular sobre a segurança, que será feita por moradores dos próprios bairros - pessoas que não estão alheias ao que lá ocorre.

Armamento do povo

Terceiro, para facilitar o controle do povo sobre o Estado é necessário levantar a reivindicação essencial do armamento massivo da população. Não é um problema revolucionário socialista, mas um problema democrático. A burguesia, em seu tempo revolucionário, defendeu a legalização do armamento popular para quebrar o monopólio das armas pela aristocracia, levantando a ideia de que um povo desarmado é um povo escravizado.

Conforme disse Lênin, “democracia é uma arma no ombro de cada trabalhador”. Essa reivindicação, no entanto, não é a mesma política defendida pela extrema-direita. Os fascistas querem flexibilizar o porte de armas para facilitar o armamento de suas milícias, ao mesmo tempo em que, historicamente, restringem o seu acesso à ampla maioria da população, colocando empecilhos burocráticos.

O que o movimento operário defende historicamente é o armamento massivo da população, começando pelos sindicatos, mas estendendo esse direito para todo o povo brasileiro.

Para exemplificar. Nesta segunda-feira, 10, garimpeiros chegaram com sete barcos e atiraram contra indígenas na Terra Yanomami, em Roraima. Os indígenas revidaram. O que poderia ter sido mais uma chacina no campo, não ocorreu, deixando um saldo de quatro garimpeiros feridos e um indígena.

Mostrou a importância de fundar os comitês de autodefesa no campo e nos bairros operários para impedir as chacinas.

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