Como a indústria de alimentos manipula a ciência do que comemos

O livro “Uma verdade indigesta – Como a indústria de alimentos manipula a ciência do que comemos” mostra como que a indústria de alimentos financia pesquisas e estudos científicos com o objetivo de obter resultados favoráveis aos seus produtos, o que resulta em uma mistura perigosa que une o marketing à ciência da nutrição

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Em 2019 foi lançado no Brasil o livro “Uma verdade indigesta – Como a indústria de alimentos manipula a ciência do que comemos”, de Marion Nestle (nada a ver com a multinacional Nestlé), pesquisadora e professora emérita da Faculdade de Nutrição, Estudos Alimentares e Saúde Pública da Universidade de Nova York. Só o estou lendo agora.

Basicamente, o livro mostra como que a indústria de alimentos financia pesquisas e estudos científicos com o objetivo de obter resultados favoráveis aos seus produtos, o que resulta em uma mistura perigosa que une o marketing à ciência da nutrição.

Ao vasculhar relatórios e pesquisas financiados pela indústria, Marion Nestle identificou padrões que vão da tentativa de ocultar os efeitos nocivos de determinados produtos, como açúcar e gorduras saturadas, ao marketing para promover alimentos milagrosos, quase sempre ultraprocessados.

O livro, diz a autora, “se dedica a compreender como empresas de alimentos, bebidas e suplementos financiam pesquisadores e profissionais de nutrição, e como isso se associa com o objetivo final do lucro”.

“No final de 2017, Journal of the American Hearth Association publicou os resultados de um teste clínico que concluiu que a incorporação de chocolate amargo e amêndoas à nossa dieta pode reduzir o risco de doenças coronarianas. Patrocinadores do estudo: a Hershey, fabricante de chocolate e a Almond Board, organização dos produtores de amêndoas da Califórnia”. Eles também pagaram a sete dos nove autores por terem participado do teste – os outros dois eram funcionários da Hershey.

Coca-cola

“No início dos anos 2000”, informa a autora, “o ganho de peso e a obesidade foram amplamente reconhecidos como problemas de saúde pública nos Estados Unidos. Pesquisadores destacaram os refrigerantes como um dos causadores dessa situação, graças ao alto teor de açúcar e à falta de valor nutricional dos produtos”.

“Para combater essas descobertas, a Coca-Cola e a Associação Americana de Bebidas passaram a financiar seus próprios estudos”, com o objetivo de mostrar, principalmente, que a obesidade estava relacionada à falta de atividade física e não ao uso exagerado das bebidas açucaradas, no caso, os refrigerantes.

A Coca-Cola, inclusive, mereceu um capítulo à parte no livro. Chamou a atenção da autora “as tentativas deliberadas e abrangentes” da empresa de influenciar as pesquisas. Em 2004, ela financiou a criação, e a manutenção, do Instituto de Bebidas para Saúde e Bem Estar, com objetivo de “aumentar a conscientização da importância de ‘estilos de vida” saudáveis e das bebidas como meio eficazes para hidratação”.

Durante anos seguidos a Coca-Cola bateu na mesma tecla, investindo muito dinheiro, financiando estudos e pesquisas nesse sentido.

Para se ter uma ideia, só nos Estados Unidos, entre 2010 e 2017, a empresa gastou 140 milhões de dólares no financiamento de pesquisas e parcerias. Por parcerias, entenda-se a colaboração de “centenas de profissionais de saúde, cientistas e organizações”. Destes, a organização da sociedade civil Ninjas for Health (Ninjas pela Saúde) rastreou 115 pessoas, entre nutricionistas (57%), acadêmicos (20%), médicos (7%), especialistas em condicionamento físico (6%), além de autores, chefs de cozinha e representantes de empresas de alimentos.

A Coca-Cola também apoiou a criação da Rede Global de Balanço Energético (GEBN na sigla em inglês), cuja “mensagem principal era: a falta de atividade física – não a dieta e, certamente, não os refrigerantes é responsável pela obesidade”.

No Brasil, a empresa contribuiu com 6,4 milhões de dólares, entre 2010 e 2015 com o Centro de Estudos do Laboratório de Aptidão Física de São Caetano do Sul, segundo informa os jornalistas João Peres e Moriti Neto, do site “O joio e o trigo”, no capítulo “Uma verdade indigesta à brasileira”.

O criador deste centro, Victor Matsudo, “comandava palestras em ‘Fábricas da Felicidade” da Coca-Cola país afora para falar sobre dietas saudáveis [...] mas não dizia nada sobre a necessidade de cortar refrigerantes”.

A ação da Coca-Cola é apenas um exemplo. No livro há muitos outros. Recomendo a leitura.

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