Cortem as cabeças

A cabeça representa o comando, a ideia, o pensamento; é na cabeça que estão os projetos, as razões e motivos para uma intervenção séria e profunda, uma transformação. Extirpar a cabeça dos "de baixo" é uma tentativa de levar junto seus sonhos, seus ideais e, portanto, suas lutas

Rebelião na Penitenciária de Alcaçuz, Rio Grande do Norte .2
Rebelião na Penitenciária de Alcaçuz, Rio Grande do Norte .2 (Foto: Ângelo Cavalcante)

Me pareceu um bom lugar; aconchegante, com boa música e bons petiscos. Eu estava com bons amigos e sentia-me, por fim, muito bem. Alguém conta uma boa piada e que não pude não sorrir; na mesa ao lado, pessoas faziam troça com os erros de certo chefe e que, de fato, não estava presente; o cardápio era bem variado e os preços eram bons.

Tudo corria bem até que alguém inadvertidamente decide falar de algo muito atual: o massacre nos presídios brasileiros, o que chamo de "holocausto nos presídios brasileiros". Olhei desconfiado como que esperando o que estava por vir; aprumei os óculos, fitei meu interlocutor; liguei meu "desconfiômetro" para não desandar a falar demais; não queria pôr minha noite a perder.

Contive-me, afinal, minha mesa estava cheia de "gente de bem" e estava seguro de que dali não sairia qualquer complacência ou piedade com pobres e miseráveis, ainda mais se estes estiverem encarcerados!

Não errei na avaliação e o primeiro soltou: "Deveriam haver massacres daqueles todas as semanas, assim, o problema das penitenciarias estaria resolvido"; a outra muito bem vestida, emenda: "Acho é pouco!" e; a outra, com silêncio obsequioso solta risinhos discretos como que dizendo: "É isso!".

De novo, vi-me só! Mas não me fiz de rogado com os convivas. Pensei: "É sina... Não tem jeito!" mas vamos lá e... Soltei: "Vocês já imaginaram que o sistema penitenciário brasileiro pode estar integralmente falido?"; "já passou pela cabeça de vocês que este modelo de instituição e que, legalmente, visa ressocialização de milhares de pessoas precisa ser repensado, melhorado?".

Meu amigo fez a contradita: "Já sei... Lá vem você com essa história de Direitos Humanos; aliás, queria que esse pessoal dos Direitos Humanos fosse tudo morto!"; a outra, amparada com uma narrativa falsa e corriqueira diz: "Como é que o país paga esse tanto de dinheiro para ter esses presos?" e, finalmente, a outra, que é odontóloga conta que "de vez em quando trato dos dentes de detentos! É um absurdo!".

Dei uma pausa! Olhei ao redor, senti a espessa bruma de absurdos históricos soprar em minhas costelas; a densa e ensanguentada névoa de um ódio enraizado e secular rodeava a mesa; mirei nas pessoas; pensei sobre que estava acontecendo e o que era, de fato, aquele dialogo.

Recordei por um instante, das filmagens que os próprios detentos fizeram dos massacres e, não casualmente, lançadas nas redes sociais, onde corpos decapitados eram amontoados em uma espécie de açougue humano; outros tinham seus corpos perfurados e suas vísceras extraídas; execuções aconteciam em série em um demoníaco balé de bizarrices onde o vernáculo luso é absolutamente incapaz de descrever.

Novidade nenhuma! Lembrei do quão banal e corriqueiro é esse tipo de cena na história brasileira; o que bandeirantes fizeram com milhões de índios, fora tão diferente assim? O que esses mesmos bandeirantes empreenderam contra Zumbi dos Palmares e seu quilombo? Zumbi teve sua cabeça arrancada e posta na ponta de uma vara; Tiradentes, um notório subversivo, além de enforcado, também teve sua cabeça exposta sobre uma estaca.

Sabem o que aconteceu com os sertanejos de Canudos? A degola fora a opção didático-pedagógica do "bravo" exercito brasileiro para a eliminação de camponeses e que queriam, imaginem, um pedaço de chão para viverem suas vidas com alguma condição.

Lampião, outro camponês das brenhas nordestinas, empreendeu firme contra latifundiários, coronéis e outros mandatários. O preço da sua resistência fora o seccionamento do seu corpo e, como não poderia deixar de ser, sua cabeça, bem como de todo o seu grupo, exposta em uma escadaria.

Pobres, detentos, revoltosos, rebeldes e revolucionários não raro, perdem a cabeça nesse país. A perda da cabeça não é só um, mais um barbarismo; é uma pedagogia; uma lição advinda do poder a ser ensinada para o populacho brasileiro. É preciso que os pequenos não tenham cabeça. A cabeça representa o comando, a ideia, o pensamento; é na cabeça que estão os projetos, as razões e motivos para uma intervenção séria e profunda, uma transformação. Extirpar a cabeça dos "de baixo" é uma tentativa de levar junto seus sonhos, seus ideais e, portanto, suas lutas.

Mas os cortes de cabeças, curioso, se dão também e, sobretudo, de outra forma; o que dizer com a nova política que o golpista Temer e sua camarilha lançam para as universidades federais do país? É arrocho, desvalorização e aviltamento do trabalho acadêmico e intelectual puro e simples, é portanto, um corte de cabeça, sobretudo, das melhores cabeças. É de um simbolismo evidente!

O que acontece desavergonhadamente com a Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), uma das principais universidades do Brasil e mesmo da América Latina e que tem o ofício de, vejam bem, "trabalhar cabeças" com o melhor da formação, do ensino e da reflexão?

Cortar a UERJ, extirpá-la do mundo universitário com suas atrevidas políticas de formação e inclusão é um fantástico projeto de dominação e, é claro, de mais subjugação de pobres e miseráveis. A UERJ tem de pagar! Quem mandou incluir negros, caboclos, miscigenados e essa horrenda gente da favela em sua comunidade de pensadores?

Vocês enlouqueceram? Quem mandou empreender a maior politica de cotas do Brasil? Quem mandou estar e servir milhares de pobres? Vocês realmente acharam que iriam passar incólumes a essa ousadia histórica? Vocês tocaram os sinos da história; tiveram a audácia de mergulhar no mais profundo breu da senzala brasileira, essa maldição que nos persegue ainda hoje para levar luzes, ilustramentos para escravizados e neo-escravizados! Estejam certos... Vocês irão pagar e cabeças vão rolar!

Cortar cabeças, aliás, é a especialidade do Brasil, de suas elites, de sua nata dirigente, essa fina gente, sempre branca, bem vestida, poliglota, racista e assassina.

Entendi perfeitamente o que se passou naquela mesa. Tomei minha caipirinha e curti "minha onda"! Não os culpo; cabeças são cortadas por quinhentos anos nesse país de coronéis, golpes e vendilhões; por quinhentos anos o Estado autoriza, determina e corta as melhores cabeças do povo.

Como se bem sabe, muitos de nós, seguem "sem cabeça". É preciso retomar o sonho, reanimar e intensificar lutas, reconstruir cabeças para, enfim, pensarmos por nós mesmos.

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