De como Temer pode salvar o Brasil

Petrobrás, Banco do Brasil e Caixa estão prestes a serem repassados à iniciativa privada, o Pré-Sal já era, e o país ficará logo sem ter mais nada para vender. Diante disso, é imperativo definir, desde já, qual será a receita futura. Quando Temer alienar o último parafuso das estatais do que viverá o Brasil?

Petrobrás, Banco do Brasil e Caixa estão prestes a serem repassados à iniciativa privada, o Pré-Sal já era, e o país ficará logo sem ter mais nada para vender. Diante disso, é imperativo definir, desde já, qual será a receita futura. Quando Temer alienar o último parafuso das estatais do que viverá o Brasil?
Petrobrás, Banco do Brasil e Caixa estão prestes a serem repassados à iniciativa privada, o Pré-Sal já era, e o país ficará logo sem ter mais nada para vender. Diante disso, é imperativo definir, desde já, qual será a receita futura. Quando Temer alienar o último parafuso das estatais do que viverá o Brasil? (Foto: Ayrton Centeno)

 “Não podemos prever o futuro mas podemos criá-lo” (Peter Drucker)

         Petrobrás, Banco do Brasil e Caixa estão prestes a serem repassados à iniciativa privada, o Pré-Sal já era, e o país ficará logo sem ter mais nada para vender. Diante disso, é imperativo definir, desde já, qual será a receita futura. Quando Temer alienar o último parafuso das estatais do que viverá o Brasil? E sem verba, como o Executivo convencerá os deputados a continuarem a lhe dar os votos imprescindíveis à redenção da pátria? Já tivemos os ciclos do pau-brasil, do açúcar, do café e agora temos o da soja. Quando se esgotar, o que faremos?  A resposta está mais próxima do que imaginamos.

         Não deixa de ser melancólico para quem caminha por nossas cidades, o espetáculo da infância miserável. Chusmas de crianças maltrapilhas mendigam, importunam os transeuntes e praticam furtos. São os sem teto de amanhã, os sem emprego, os sem estudo, os sem terra, o combustível que alimentará ondas de saques à propriedade privada, eixo fundador da democracia que tanto reverenciamos e que tão ameaçada esteve em anos recentes pela ascensão do populismo. Porém, como o outro nome da crise é oportunidade, é justamente em tal contingente que está a solução. 

         Urge inserir esses agentes econômicos marginalizados no Mercado, cabendo à Livre Iniciativa romper os grilhões dessa exclusão. É certo que uma criança recém-nascida nesses grupos de baixa empregabilidade e renda deprimida pode ser sustentada pelo leite materno durante um exercício econômico. Depois deste período, agrava-se a situação. É na altura do primeiro aniversário que se propõe olhar por elas de tal maneira que deixarão de ser um fardo para seus país e de onerar as finanças públicas. Em vez disso, representarão a salvação de suas famílias, abrindo novos negócios para a nação.

         Graças aos contínuos esforços de nossos dirigentes, estamos logrando ampliar o total de indivíduos abaixo da linha da pobreza. Calcula-se em cerca de 20 milhões os casais em idade de procriação em tal estado. Logo, são 40 milhões incapazes de manter razoavelmente sua descendência e de transmitir-lhe preceitos morais e instrução condigna. Produzem produtores de problemas: drogados, sem-teto, assaltantes, analfabetos, estupradores, doentes mentais, sem terra, doentes, presidiários e desempregados crônicos. É evidente que sua presença representa uma corrosão terrível do erário, exigindo orçamentos cada vez maiores para segurança, assistência social, saúde e educação etc... Sangram os cofres públicos. 

        Porém, existe uma maneira eficiente de reverter tal cenário, tornando receita aquilo que é despesa. Pressupondo-se que os 20 milhões de casais -- tecnicamente denominados Unidades Produtoras Economicamente Ativas (UPEAs) -- procriem à razão de uma criança por ano, teremos uma safra de 20 milhões de indivíduos/ano. Trata-se de conjunto de peso incompatível com a preservação das metas econômicas, aguçando o déficit através da pressão para que o Estado queime reservas com penduricalhos da agenda social e deixando de alcançar o superávit primário. Simplesmente inaceitável para um país que, finalmente, quer fazer a lição de casa.

         Na nossa agenda reformista, o ítem mais importante será a Reforma Gastronômica. Daqueles 20 milhões gerados anualmente, 90% serão disponibilizados para consumo. Dos 2 milhões restantes, 200 mil machos serão reservados para reprodução da força de trabalho e fertilização dos 1,8 milhões de fêmeas remanescentes. 

      Os 18 milhões restantes patrocinarão o advento de nova e notável riqueza em sintonia com as tendências do Livre Mercado, sempre vislumbrando a prospecção de novos nichos a serem explorados. Nesta abertura de fronteiras, que implicará na derrubada de preconceitos jurássicos, que somente estorvam o pleno desenvolvimento das nossas potencialidades, o que era ônus virará bônus, alavancando a competitividade do Brasil no mundo globalizado. 

        As UPEAs atenderão fundamentalmente à demanda internacional, entregando aos compradores 18 milhões de carcaças/ano. Nada impede que o mercado interno possa adquirir a carne especial, mas o produto, pelo seu alto preço, visará prioritariamente uma clientela de hábitos alimentares sofisticados e poder aquisitivo superior que frequenta as steakhouses do Primeiro Mundo. Com maior valor agregado, o carro-chefe da investida no mercado global será o baby beef. Ao passo que o babyburger ingressará no mercado jovem consolidado das redes de fast food.

       Como o dispêndio com a manutenção dessas crianças sem futuro até a idade adulta -- e muitas vezes depois dela, da terceira idade e até a morte -- pode atingir o patamar razoável, digamos, de US$ 100 mil per capita, presume-se uma economia, já no primeiro ano de instalação do Programa, de US$ 1 bilhão. No entanto, a lucratividade mais expressiva desta nova commodity, decorrerá obviamente da exportação.

        A curto prazo, os investimentos serão irrisórios, uma vez que o parque de matadouros e frigoríficos existente poderá ser usado com mínimas adaptações. Além do mais, dar-se-á um fim nos períodos de ociosidade da estrutura instalada que estará operando à plena capacidade todo o ano. Subsidiariamente, reduzir-se-á a pressão sobre o meio-ambiente, uma vez que a demanda de gado de corte, cada vez exigindo mais a derrubada de florestas para a semeadura de pastos, também cairá. Como se vê, uma atividade, além de tudo, altamente sustentável. 

       É de se cogitar, entretanto que, diante de uma aceleração da demanda global, torne-se imperiosa a ampliação da capacidade instalada. É aí que entrará o Promatar, o novo fundo de estímulo ao abate. O Promatar bancará a implantação de  matadouros especializados através da destinação de parte dos tributos recolhidos sobre a atividade ao financiamento de novas unidades. Os tomadores terão 30 anos para pagar o empréstimo, sendo cinco de carência, com juros de 6% ao ano e sem correção monetária. O Estado entregará a infraestrutura necessária, mais a isenção do ICMS. 

         A médio prazo, as UPEAs serão removidas para as imediações dos grandes abatedouros. Em vez do populista programa Minha Casa, Minha Vida, o Estado erguerá galpões coletivos de baixo custo para abrigar reprodutores e matrizes, de modo a baratear o frete da matéria-prima, reduzindo o custo final e ganhando competitividade. Através das suas gerências de PH (Pecuária Humana), as indústrias aportarão técnicas de confinamento, permitindo uma correlação mais favorável na equação idade/peso e o abate precoce. Antes da parição, as fêmeas ingerirão dieta balanceada, com efeitos benéficos sobre a maciez da carne do rebento. 

       Outro componente, propiciado pela mesma medida, residirá na oferta de um segundo emprego para reprodutores e matrizes. Os casais poderão ocupar-se com o  processo de dessosamento, separação de cortes nobres, seleção de miúdos, fabricação de bacon, embutidos ete. Do ponto de vista das relações pessoais, com reprodutores e matrizes convivendo diariamente, a providência trará maior harmonia ao ambiente de trabalho, tornando-o praticamente familiar, resultando em maior satisfação no cumprimento das tarefas e na elevação da produtividade.

       Situadas na base da pirâmide social, estas famílias, sob o emblema da Livre Iniciativa, progredirão profissionalmente. De nenhum salário, passarão a ter dois; em vez de arcarem com o sustento da prole, gastarão os dois salários apenas com o casal; deixarão de frequentar as ruas para furtar ou de produzir pequenos delinquentes, deprimindo os índices de criminalidade, hoje em elevação; vestindo-se e comendo melhor, inclusive no refeitório do matadouro, melhorarão de aparência, oferecendo visão mais agradável do país aos turistas que o visitam.

       Mas o grande salto está prometido para o amanhã. E surgirá através do reprodutor de apurada qualidade genética. Com seu sêmen disputado pela indústria e conseguindo cobrir centenas de fêmeas/ano, desfrutará de excelente oportunidade para acumular capital. Seu rendimento será muito superior ao reprodutor de baixa linhagem. E embolsará mais um salário advindo de sua prazerosa tarefa na empresa. Ali, imerso no clima empresarial e dotado de faro de empreendedor, em pouco tempo estará estabelecido com negócio próprio. E dará início a um próspero ciclo de crescimento sob a égide da saudável concorrência. Nada de novo sob o Sol. Apenas o Mercado provando, mais uma vez, e aqui de modo peremptório, que é o único meio confiável de progresso social.      

(*) Antes que alguém resolva me dar um tiro, é preciso dizer que o texto acima – para quem não sabe -- é uma adaptação livre, melhor seria dizer uma recriação com todos os riscos inerentes, de um clássico da mordacidade escrito por Jonathan Swift, em 1729. Sob o título "Modesta Proposta Para Evitar Que As Crianças Da Irlanda Sejam Um Fardo Para Os Pais Ou Para O Seu País",  Swift derrama vitríolo na cabeça dos insensíveis do seu tempo. Subjugados pela Inglaterra, os camponeses da Irlanda tinham sua renda miserável sugada pela elite londrina, levando uma vida animalizada, o que aguçou a ironia do autor de "As Viagens de Gulliver". Aparentemente lógica, dissimulando a insanidade do argumento central, sua prosa absurda produz efeitos devastadores, mesmo transposta para outra época. É necessário reconhecer porém que a ferocidade de alguns lugares e períodos, onde rigorosamente tudo pode acontecer -- como o Brasil de 2017, por exemplo, com seu repertório de horrores  -- tornam crível até a modesta e brutal proposta de Swift.  

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