Com o perdão do trocadilho, a decisão do Palácio do Planalto de defender o fim do recesso parlamentar e, com isso, acelerar o rito do processo de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff pode ter sido uma aposta um tanto temerária.
O levantamento mais recente da temperatura parlamentar aponta que hoje Dilma teria 258 votos garantidos no plenário da Câmara – 86 a mais do que o mínimo necessário para se manter no poder. Daí a pressa em resolver rapidamente a disputa, ainda nas férias de janeiro e antes que a chamada “voz rouca das ruas” pressione o parlamento.
No entanto, a arte da política nunca foi o ponto forte da presidente Dilma Rousseff, sempre criticada por resistir a fechar acordos com seus aliados e não cumpri-los – dando-se a ela o crédito de que muitos desses acordos nem sempre eram republicanos.
Ao contrário da presidente, o vice Michel Temer, hoje o principal interessado no impeachment, é um articulador nato. E tudo o que Dilma tem para oferecer aos aliados, Temer pode oferecer em dobro, até porque seu eventual governo teria ainda os espaços abertos pela saída do PT.
Nesse jogo de xadrez, o tempo poderia ser um aliado de Dilma, consolidando a imagem de que ela foi vítima da vingança do franco-atirador Eduardo Cunha. Além disso, a judicialização do processo poderia fazer com que o Brasil emendasse Natal, Ano Novo, férias, Carnaval, Olimpíadas e eleições municipais, deixando o impeachment em segundo plano.
Dilma decidiu pagar para ver e, se não houver recesso, Brasília poderá viver em janeiro a maior temporada de traições e conspirações de sua história.
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