Fantasias ideológicas produziram ministro-piada

"Indicado por Bolsonaro, em artigo disponível na internet novo chanceler fala sobre 'Deus de Trump' e multiplica demonstrações de subserviência ao presidente dos EUA, que chega a ser tratado como salvador da humanidade", escreve Paulo Moreira Leite, articulista do 247; "Ignorando pré-Sal, acordo Boeing-Embraer e outros debates  obrigatórios entre os dois países, chanceler descreve o salão Oval da Casa Branca como um divã de psicanalista, no qual Trump tenta submeter o Ocidente a uma terapia de recuperação da personalidade perdida"

Fantasias ideológicas produziram ministro-piada
Fantasias ideológicas produziram ministro-piada
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Os caminhos que levaram à indicação do diplomata Ernesto Araújo para comandar o Itamaraty a partir de 1 de janeiro produziram uma piada pronta. Do ponto de vista prático, lhe falta a indispensável experiência para a função:  nunca chefiou uma embaixada ou qualquer outra representação equivalente do país no exterior. Do ponto de vista político, a situação é ainda mais grave.

Numa instituição nascida, criada e sustentada pelos brasileiros para defender os interesses da nação, as ideias de Ernesto Araújo traduzem uma postura irresponsável de subordinação absoluta ao governo do presidente norte-americano Donald Trump. No mais conhecido texto de sua autoria, "Trump e o Ocidente", o futuro ministro das Relações Exteriores, defende a reverência aos EUA num grau como  nunca se viu antes.

Evitando qualquer distanciamento ou análise crítica -- postura que é obrigação profissional de todo diplomata -- a postura é de admiração e deslumbramento, numa nova versão do Ame-o ou Deixe-o do regime militar -- dessa vez, o que se deve amar ou deixar é Trump e seu governo.

Num texto que ignora o pré-Sal, acordo Boeing-Embraer, energia nuclear e outros debates de um contencioso que é tema obrigatório da atividade diplomática recente e futura entre os dois países,  o texto aceita a noção vulgar da cultura pós-moderna, pré ou pós política, como queira. Localiza a raiz dos problemas humanos deste início de século XXI num ponto distante das necessidades materiais de homens e mulheres. Para o novo chanceler, o problema central reside numa humanidade que se encontra "psiquicamente doente", "não tem ancestrais", "não tem heróis" e "não tem alma, apenas processos químicos correndo aleatoriamente entre seus neurônios." Neste universo, que obviamente pede um socorro imediato, Donald Trump é apresentado como a única chance de salvação. Assim, literalmente, de topete e tudo.  

Na versão amistosa do novo chanceler, mais do que chefe da principal potência mundial, com uma atitude permanente de elevar a temperatura entre as nações,  reforçar a exploração das populações pobres e produzir crescentes ameaças à paz e ao entendimento entre os países,  o Salão Oval da Casa Branca funciona como  um divã de psicanalista. Numa postura que justifica o reconhecido messianismo de Trump, ele define sua atuação presidencial como um esforço para "submeter o Ocidente a uma terapia de recuperação da personalidade perdida " na qual procura "o reestabelecimento do contato com o próprio inconsciente".

Alguns parágrafos adiante,  se afastando da psicanálise global e envolvido em nova elaboração, agora num tom mais para místico-filosófico, Ernesto Araújo refere-se a "um Deus por quem os ocidentais anseiam ou deveriam ansiar, o Deus de Trump".  Para não deixar dúvidas no leitor, chega a sublinhar, extasiado com a própria descoberta:  "quem imaginou que alguma vez leria estas palavras, 'o  Deus de Trump? '".

Para além dessa enxurrada psicanalítica e mística, que parece saída da Superinteressante e da Planeta da década de 1970,  a visão política do novo chanceler pertence a uma árvore genealógica fácil de identificar. Trata-se do pensamento ultra-conservador Samuel Huntington (1927-2008), um dos formuladores da ultra-direita norte-americana.  

Cientista político, professor em Harvard e acima de tudo conselheiro de diversos governos republicanos, em 1996 Huntington publicou um artigo ( "Choque de Civilizações") que se tornaria referência do pensamento conservador, formulando argumentos e conceitos que teriam impacto reconhecido nos anos seguintes. 

Ele pensava a reorganização do mundo após o fim da União Soviética, a desintegração do comunismo e o inevitável retorno da China e outros países à esfera do capitalismo. Havia um debate, naquela época. Outro pensador, Francis Ford Fukuyama, que também tinha formação conservadora, acreditava no Fim da História. Dizia que os valores da democracia e da iniciativa privada haviam vencido o grande conflito ideológico do século XX e que a humanidade iria ingressar num período de harmonia ideológica, quem sabe até de paz.

Huntington fez o debate a partir de uma visão contrária -- e aqui reside seu extremismo, incorporado em versão pós-moderna por Ernesto Araújo. 

Sustentava que  uma nova guerra iria -- e deveria -- prosseguir, na forma de conflito de civilizações. Em sua visão, que traduzia o interesse norte-americano de expandir a própria supremacia nas novas circunstâncias,  “o eixo central da política mundial no futuro tende a ser o conflito entre o Ocidente e o resto”. Falando de um conflito insuperável entre valores fundamentais – daí o termo choque de civilização – foi um dos primeiros  a denunciar  o “relativismo cultural” como prova de fraqueza num horizonte de ameaça e risco.

Em sua visão, um "absolutismo cultural" que não ousa dizer seu nome, a emergência dos povos distantes e emancipados torna-se um perigo permanente.  Referindo-se a indianos, chineses, árabes e outros povos, Huntington afirma que os conflitos “entre as civilizações vão suplantar os conflitos de natureza ideológica” e, sem se dar ao trabalho de falar em Deus ou psicanálise, diz o que deve ser feito: “o Ocidente terá de manter o poderio econômico e militar necessário para proteger seus interesses diante dessas civilizações.”

Huntington era um intelectual ousado, envolvido até a medula com os interessas corporativos norte-americanos. Exibia um engajamento político  tão escancarado que em 1987 não conseguiu tornar-se membro da Academia Nacional de Ciências dos EUA  porque seu trabalho foi considerado "pseudo-científico" pela instituição. Mesmo assim, anos depois, ao desenhar o mundo da "Guerra de Civilizações", fez uma distinção clara ao dizer quem estava aonde.

Definiu como "Civilização Ocidental" uma região que incluía a Europa e a América do Norte. Traçou uma linha divisória ao sul dos EUA, onde se encontram Texas e na California. Dali para cima, ficava a Civilização Ocidental. Para baixo, começava outra cultura, que chamou de "Civilização  Latino Americana". Ali se encontra o México, Venezuela e Colômbia, Argentina, Chile e Brasil, naturalmente.

A notícia surpreendente é esta: o criador do conceito de Choque de Civilizações disse que o destino dos sul-americanos se encontra em outro lugar. Falou em "Ocidente e o resto".

Sem menções específicas -- o artigo foi escrito há mais de 20 anos -- colocou o Brasil no "resto".

Em vários parágrafos de seu artigo, Eugênio Araújo sustenta que o lugar do Brasil é no "Ocidente", que apresenta como bloco de interesses comandado pelo Deus Trump. Nessa toada,  chega a elogiar o esforço do governo Temer para ingressar na OCDE.

Também sinaliza para o abandono de uma das iniciativas de fôlego da diplomacia Lula-Dilma, simbolizada pelos BRICS -- um pacto entre Brasil, Russia, India, China e Africa do Sul. 

A geografia de Samuel Huntington é de grande utilidade  para os brasileiros que já aprenderam a cultivar nossa diversidade, valorizam   herança africana partilhada por 53% de nossa população, compreendem a riqueza cultural dos povos indígenas -- e agora serão confrontados com a diplomacia do Deus de Trump.

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