Felipe Neto, Amoedo e Ciro: o que isso significa?

“O arco político explicitado pelo youtuber Felipe Neto em sua entrevista ao Roda Viva é exatamente aquele tolerado pelo establishment, que agora tenta se livrar da extrema-direita, mas ainda mantém seu veto ao lulismo”, diz o jornalista Leonardo Attuch, editor do 247

(Foto: Divulgação)
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A entrevista concedida pelo youtuber Felipe Neto ao Roda Viva foi marcante por dois momentos. Primeiro, aquele em que ele reconheceu que o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff foi um golpe de estado. Segundo, a declaração de que seu arco político estaria situado entre Ciro Gomes, do PDT, e João Amoedo, do Partido Novo. 

A primeira declaração carece de interpretação. Qualquer brasileiro minimamente informado sabe que Dilma foi afastada por um processo farsesco. Uma conspiração política que contou com apoio de grupos de comunicação poderosos, atendeu a interesses econômicos locais e internacionais e foi chancelado pelas “instituições que estão funcionando”. Ainda assim, o mea culpa de Felipe foi um gesto louvável, que merece elogios e deveria ser seguido por muitos outros comunicadores que participaram da farsa golpista.

A segunda declaração é menos óbvia. Como entender que alguém possa estar nesse arco que vai de Ciro a Amoedo? No dia seguinte à entrevista, o próprio Felipe voltou às redes sociais e disse não votaria em Amoedo, mas afirmou que esse campo político engloba todos aqueles que não seriam extremistas, incluindo setores do próprio PT.

Como então deve ser compreendido seu movimento? Minha interpretação, apenas uma hipótese, é a seguinte. Este arco político explicitado pelo youtuber que fala com milhões de brasileiros, que vai de Amoedo a Ciro, é exatamente aquele tolerado pelo establishment, que agora tenta se livrar da extrema-direita bolsonarista, mas mantém seu veto ao lulismo (o setor do PT que seria “extremista”). Mais ou menos assim: a direita só pode brincar de democracia até onde vai o Amoedo. E a “esquerda” só pode brincar até onde chega o Ciro. Na prática, seriam os 50 tons de PSDB e a polarização finalmente chegaria ao fim, como se o radical de extrema-direita Bolsonaro fosse o espelho invertido do social-democrata Lula.

Coincidência ou não, Felipe Neto disse que voltará a usar as cores nacionais: o verde e amarelo que se transformaram em uniforme de fascista. Outro grande comunicador, Fábio Porchat, também formulou recentemente que as únicas opções brasileiras não podem ser a burrice (Bolsonaro) e a corrupção (que o establishment associa seletivamente ao "lulopetismo"). Pode ser tudo coincidência, repito, mas eu aposto na tese de uma dominação de espectro total, para que o poder se mantenha intacto, sob a aparência de democracia.

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