Opinião

Flávio não anexou o Estadão à carta enviada aos EUA

Flávio Bolsonaro tenta associar o caso Master ao governo Lula, mas reportagem do Estadão expõe a presença central de aliados bolsonaristas na “vorcarosfera”

Daniel Vorcaro e Flávio Bolsonaro
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Ao nominarem os envolvidos — muito, pouco ou nada — com Daniel Vorcaro, os repórteres Daniel Weterman, Lucas Thaynan, Bruno Ponceano e William Brizola, do Estadão, fornecem-nos um quadro didático da rede de propinas, negócios comprometedores e encontros idem da seara do Banco Master. Bastante criativo o termo “vorcarosfera” e, é verdade, ali estão listadas pessoas da direita e da esquerda. Numa clara forçada de barra, Lula está presente, mas relata-se corretamente que, em encontro com o presidente, o mafioso deu com os burros n’água.

A “vorcarosfera” do Estadão é útil pelo didatismo e pela abrangência, desde que o leitor possua os filtros necessários. Não foi consultada, certamente, por Flávio Bolsonaro na carta recém-enviada ao Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), na qual atesta seu entreguismo de várias formas e forja uma estupenda mentira, bem ao estilo dos estrategistas da extrema direita global: classifica o escândalo do Master como um caso de corrupção do governo Lula. Nem o maior dos imbecis americanos acredita nisso, mas as bobagens da família golpista costumam ser compradas pelo valor de face por trumpistas.

O jornalão “liberal” do Limão deveria anexar-se à carta do filho-candidato, que se encontra assim contemplado pela reportagem: “O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, pediu dinheiro ao banqueiro Daniel Vorcaro para bancar a produção de um filme sobre o pai. O pedido envolveu uma contribuição de aproximadamente US$ 24 milhões, dos quais US$ 10,6 milhões, o equivalente a R$ 61 milhões na cotação da época, foram pagos até 2025. O parlamentar tinha conversas com Vorcaro pelo celular e visitou o banqueiro em São Paulo após a primeira prisão do empresário, no fim de 2025”.

O “escândalo do governo Lula”, vejam só, também tem como protagonista o senador Ciro Nogueira, bolsonarista de quatro costados, cujas referências na matéria não são muito lisonjeiras: “O senador Ciro Nogueira (PP-PI) é investigado por receber propina de Daniel Vorcaro em troca de defender interesses do banqueiro no Congresso Nacional. Segundo a Polícia Federal, Nogueira recebia uma mesada de R$ 300 mil de Vorcaro, que pode ter aumentado para R$ 500 mil, totalizando R$ 6 milhões. O banqueiro afirmou, em sua segunda proposta de delação premiada, que pagou propina ao parlamentar ao bancar benesses a ele, como viagens e festas. Ciro Nogueira foi autor de uma emenda que favorecia o Master no Senado. Material da Polícia Federal aponta que Nogueira esteve em viagens, festas e fez negócios com Vorcaro, além de voar em aeronaves do empresário”.

Será que o ex-ministro bolsonarista das Comunicações Fábio Faria é outra figura a comprometer o “governo Lula” no caso Master? Assim ele está referido na reportagem do Estadão: “Uma empresa vinculada ao banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, fez negócios com o ex-ministro Fábio Faria na área de energia eólica, pagando R$ 67,5 milhões por um projeto. Além disso, Faria atuava como um ‘elo’ político para o empresário e foi responsável por apresentar Vorcaro para outros políticos e autoridades em Brasília”.

Outro que, indubitavelmente, não é figura proeminente do “governo Lula” é Fábio Wajngarten: “O banco de Daniel Vorcaro pagou R$ 3,8 milhões para Fabio Wajngarten, ex-chefe da Secretaria de Comunicação da Presidência no governo Bolsonaro. Ligado ao ex-presidente Jair Bolsonaro e à família Bolsonaro, Wajngarten atuou como assessor direto e também advogado do ex-presidente em algumas ações”.

Por fim, restam evidentes as relações nada republicanas com Daniel Vorcaro de dois governadores que são tudo, menos lulistas: Ibaneis Rocha, do Distrito Federal, e Cláudio Castro, do Rio de Janeiro. Assim o Estadão saúda-os:

Ibaneis: “O ex-governador do Distrito Federal Ibaneis Rocha (MDB) foi o principal fiador político da tentativa de compra do Master pelo Banco de Brasília (BRB), cercada de fraudes, como mostram as investigações da Polícia Federal. Vorcaro confessou à PF que se reuniu pessoalmente com Ibaneis para tratar da venda do Master para o banco estatal controlado pelo governo do Distrito Federal. O escritório do ex-governador recebeu dinheiro de fundos ligados ao Master e à Reag. Ibaneis é responsável pela indicação de Paulo Henrique Costa, suspeito de receber propina de Vorcaro, na presidência do BRB. Em relação a Vorcaro, Ibaneis disse: ‘só me pagou dois vinhos’”.

Castro: “O governador do Rio, Claudio Castro (PL), é investigado por usar o Rioprevidência, fundo de previdência dos servidores do Rio, para aplicar recursos no Banco Master. As aplicações em fundos de investimentos ligados ao Master chegam a R$ 3 bilhões, segundo a Polícia Federal. Os investigadores apontaram que Castro mantinha “vínculo próximo” e “alinhamento político” com o banqueiro. Ele também é investigado por usar a estrutura do Estado para beneficiar o Grupo Refit, conglomerado do setor de combustíveis que é considerado o maior sonegador de impostos do país. A investigação também aponta encontros de Castro com Vorcaro”.

As referências a figuras próximas a Lula na reportagem — como Guido Mantega, Jaques Wagner e Ricardo Lewandowski — não são elogiosas. Porém, não se comparam, em grau de proximidade e gravidade, os atos suspeitos com os praticados pelos expoentes bolsonaristas, dos quais Daniel Vorcaro é “irmão”. A discussão sobre o matiz político-partidário dos crimes liderados por Vorcaro é indecente, dada sua nítida coloração bolsonarista e sua gênese, lá atrás, em quadros técnicos corrompidos do Banco Central e do Banco de Brasília.

Há ainda, na matéria do Estadão, entre várias outras pessoas/fatos que comporiam a “vorcarosfera”, descrições corretas dos relacionamentos suspeitos entre o mafioso e os ministros do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes, Nunes Marques e Dias Toffoli, campo minado que merece ser cavoucado a fundo no decurso das investigações.

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Cortes 247

Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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