Homem adoecido ameaça de morte médica negra

Buscamos outra sociedade, outro paradigma econômico e político que promova o desabrochamento dos melhores potenciais humanos e sociais.

www.brasil247.com - Médica Kássia Karoline Barcelos
Médica Kássia Karoline Barcelos (Foto: Reprodução)


Numa certa vez, lá pelos inícios dos anos 90 eu, professor universitário, saboreava pizza com colegas e pessoas amigas num bar em Canoas, RS, quando se aproximou um homem pobre, visivelmente bêbado,  contando algo que o espantara, concluindo com  o comentário: “viverei cem anos e não verei tudo!”

Depois ouvi isto outras vezes diante de espantos das pessoas. Nesta semana aqui em Goiás ocorreu um fato “suigeneris” que ultrapassa um simples comentário em forma de ditado batido. Refiro-me ao caso do “seo” Jean Cleber Fernandes da Costa, da cidade de Iporá.

Jean desmaiara e caíra na Rodoviária. Em seu socorro chamaram o SAMU e, na ambulância, foi a médica Kássia Karoline Barcelos, uma jovem de 27 anos.

O impressionante é que mesmo recebendo socorro, após sair do estado de desmaio, Jean não perdeu a oportunidade de despejar seu ódio racista contra a médica Kássia. Quando esta lhe perguntou o que sentia o racista respondeu: “vontade de dar um tiro na sua cara”. Em seguida, ele teria falado: “Sua preta nojenta e feia”, segundo relatou a polícia.

Nota-se nas palavras vomitadas por Jean a forte manifestação de ódio, de racismo e de mal estar ao se dirigir tão abusiva e desrespeitosamente à médica,  definindo-as como “nojenta” por causa da cor de sua pele.

O comportamento deste homem nos espanta, porém suas palavras revelam o que transpassa sua mente poluída de racismo, misoginia e ódio. A vontade expressa, que gerou prisão por crime qualificado e por imensa ingratidão numa hora em que recebia solidariedade humana e estatal, sinaliza o contexto que gera tiros e mortes de mulheres em ambientes obscuros e com poucas ou de nenhuma testemunha. Jean é um dos artilheiros assassinos potenciais produzidos pela política fascista e miliciana propagada pela indústria de armas e pelo governo genocida de Jair Bolsonaro.

Impressiona o simbolismo das afirmações feitas por um homem caído e em lugar público, como se ostentasse coragem e ousadia no enfrentamento de inimigos a serem abatidos como animais caçados e acuados.

Pensando no encontro no Programa “CONVERSA COM” conversei com a participante Dra Cida Alves, que também é psicóloga sobre o simbolismo deste fato.

Para ela não resta dúvida quanto a fusão de fatores excludentes e de ódio, ativa neste fato como em milhares de outros com outras nuances.  

A misoginia como desprezo às mulheres em forma de abusos, gritos, exposição nas redes sociais, agressões verbais com o objetivo de rebaixar,  desqualificar e até matar as mulheres, é a tentativa de demonstrar força por parte de masculinidades enfraquecidas de homens que duvidam de si mesmos e têm inveja da evidente potencialização feminina.

Assim, seguidores da ideologia encarnada por Jair Bolsonaro e sua autopropaganda como “imbrochável”, para o delírio de seus milhões de “brocháveis”,  principalmente na divulgação e uso de armas de canos preferencialmente longos e de tiros potentes é a forma de elevar sua baixíssima e até aniquilada auto estima.

Os homens da autoproclamada “imbrochalidade” são mendigos de estima, de afeto e de reconhecimento. Extamente, além do simbolismo das armas, são violentos porque temem pavorosamente o debate. Vêm no diálogo e na argumentação o terror da humilhação de sua ignorância, despreparo intelectual, ético e afetivo. São indigentes psíquicos e espirituais.

A impotência que apavora misóginos e racistas é a indigência humana que os faz odiar negros, negras, quilombolas, indígenas e homoxessuais  pelo fato de, consciente ou inconscientemente, ver nesses segmentos os alvos empobrecidos, que fácil e rapidamente são adjetivados como vagabundos perigosos a serem eliminados com o objetivo de limpar a sociedade, buscando torná-la arejada e “pura”.

Conforme a visão dos “imbrocháveis” armados, vibrando de ódio misógino, racista e homofóbico, que se consideram “cidadãos de bem”, a escravidão nunca existiu assim como a emancipação feminina jamais deve ocorrer e os LGBTQUIAP+ são “lixos” “doentes” a serem “curados” ou mortos.

Para este tipo de ausência de razão não há conflito de classes nem causas econômicas capitalistas que produzam desigualdades, escravidão e submissão, mas problema de moralidade e ponto final.

É imperativo que abramos isto que nos faz ver coisas espantosas, que numa vida centenária não viríamos  e como ocorrem tão assustadoramente no Brasil. É preciso sim analisarmos as causas dessa nulidade da razão e pauperismo afetivo que nos abala e nos assusta como as ameaças e ocorrências por parte dos “imborcháveis”.

Buscamos outra sociedade, outro paradigma econômico e político que promova o desabrochamento dos melhores potenciais humanos e sociais.

Abraços proféticos e revolucionários,

Dom Orvandil.

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