Quando surgiu no noticiário internacional alegando ser vítima de “golpe de estado”, na iminência de ser derrubado após um ano de mandato, o rosto do presidente do Peru, o empresário PPK não me cativou. Ao contrário, identifiquei em sua fisionomia magra e chupada, rosto ossudo, traços de uma pessoa perversa, sem escrúpulos, fria e calculista. Cara de carcereiro de Auschwitz.
No entanto, a acusação imputada pela oposição fujimorista – “incapacidade moral permanente” – também me soou perversa, sem escrúpulos, fria e calculista. Digna do realismo fantástico do conterrâneo Mario Vargas Llosa. É preciso ser um corrupto serial para se enquadrar nessa definição.
Em virtude da acusação esdrúxula, PPK ficou até simpático, como todo aquele que sofre injustiça, fiquei contente em saber que seus dois vice-presidentes permaneceram ao seu lado, não o traíram em momento algum diante da possiblidade de tomarem seu lugar, ao contrário do que aconteceu recentemente num país vizinho e, no primeiro momento, atribuí a essa lealdade sua sobrevivência política.
Até que ele mostrou que eu estava redondamente enganado. Ao conceder, no dia seguinte à sua vitória no Congresso, um indulto de Natal ao ex-ditador Alberto Fujimori, que cumpre pena de 25 anos desde 2005, ele fez questão de revelar que tinha ganho por ter feito barganha com o filho de Fujimori, um deputado federal, que com sua ausência e de mais nove correligionários na votação impediu a queda de PPK, engendrada por seu partido, dirigido pela irmã.
A decisão estragou o Natal do Peru. Indignados, os peruanos foram imediatamente às ruas não para saudar Papai Noel, mas para repudiar o indulto mostrando cartazes com fotos e nomes das vítimas do ditador e acusando PPK de traição – ele havia prometido jamais indultar a Fujimori. Ninguém sabe onde os protestos vão dar, mas é certo que a revolta é grande e outra crise se desenha no horizonte depois dessa que o acordo do indulto enterrou.
Fujimori não foi condenado – dentro da lei, com julgamento imparcial – somente por corrupção, mas por comandar matanças de civis em La Cantuta e em Barrios Altos, dentre outros massacres que ainda estavam sub judice até a concessão do indulto, ao lado de seu homem forte, Vladimiro Montesinos, chefe de um esquadrão da morte, que cumpria o papel do nefando Filinto Muller no Estado Novo de Getúlio Vargas.
Por mais alquebrados, doentes ou desenganados que estejam, ditadores jamais podem ser perdoados.
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