Militares fracassam na sua prova de fogo

"Os militares fracassam abertamente no ministério da saúde, escancarando publicamente sua incompetência e sua responsabilidade pelos milhares de mortes cotidianas no Brasil. Fica evidente, com resultados escandalosos, a incapacidade dos militares para dirigir o ministério da saúde em plena pandemia", escreve Emir Sader

Ministro interino da Saúde, Eduardo Pazuello
Ministro interino da Saúde, Eduardo Pazuello (Foto: REUTERS/Adriano Machado)
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Depois da ditadura, os militares ficaram descolocados na transição à democracia. Naquele momento a ditadura era execrada, portanto toda a atuação dos militares era rejeitada, considerada negativa. Era como se o Brasil se reencontrasse com a democracia, abandonada pelos militares com o golpe de 1964 e a ditadura militar de 21 anos.

Houve um processo de desmilitarização do Estado, o sistema político retomou seus critérios liberais: separação dos três poderes da república, eleições periódicas, pluralidade partidária, imprensa livre (que, no liberalismo, quer dizer imprensa privada). O Brasil contou até com uma Assembleia Constituinte, para contar com uma Constituição democrática e erradicar as normas que a ditadura, através dos seus atos institucionais, tinha imposto.

Porém, os militares nunca tomaram posição oficial sobre o golpe e a ditadura. O silêncio era como se seguissem acreditando que teriam salvo o Brasil dos riscos do comunismo com o golpe de 1964. Que a ditadura militar teria recolocado o país no caminho do desenvolvimento econômico, fazendo com que passasse a ser uma potência, aliado estreitamente aos Estados Unidos na guerra fria, contra o comunismo.

As FFAA não voltaram a se pronunciar sobre sua trajetória. Se retiraram silenciosamente aos quartéis. Participaram sempre nos governos, nos marcos dos ministérios reservados para eles. Nos governos do PT receberam condições de modernização dos seus equipamentos.

A Comissão da Verdade voltou a colocar a atuação das FFAA em cheque, revelando a atuação dos militares durante a ditadura, incluindo a tortura como método sistemático de interrogatório, assim como a atualização do número e nome das vítimas, mortas, desaparecidas e torturadas por eles. Não tiveram forma de responder, apenas surgiram vozes discordantes, ideológicas, incapazes de contestar as graves acusações, que atualizaram o papel sumamente negativo do golpe, da ditadura, da tortura, responsabilidade das FFAA.

Os militares ressentidos foram encontrando no discurso do Bolsonaro sua possibilidade de revanche. Era alguém que reivindica publicamente o papel das FFAA no golpe militar de 1964, a ditadura militar, a tortura. Que os chamou para governar, com a ideologia do anticomunismo da guerra fria, que atribui aos militares o papel de garantia da ordem, de luta contra a subversão e o comunismo.

Os militares foram entrando no governo de bom grado, ocupando cada vez mais cargos e de maior importância, tornando-se coniventes de tudo o que o governo é. Com a corrupção, com a incapacidade para governar o país, com o desprestígio do Brasil no mundo. Até que resolveram se meter no ministério da saúde. Auto confiantes na sua suposta capacidade para resolver problemas, se meteram numa situação de risco total para sua imagem.

 Se, ter nenhuma experiência, nem condição de enfrentar problemas de saúde pública, de forma prepotente, deslocaram todo o pessoal de saúde no Brasil, com larga experiência e prestígio, para assumir os riscos de encarar uma situação que mata a milhares de brasileiros todo dia.

Os militares fracassam abertamente no ministério da saúde, escancarando publicamente sua incompetência e sua responsabilidade pelos milhares de mortes cotidianas no Brasil. Fica evidente, com resultados escandalosos, a incapacidade dos militares para dirigir o ministério da saúde em plena pandemia. Se desfaz totalmente a imagem de competência que os militares pretendiam acalentar desde a ditadura militar e que agora queria reatualizar.

Se continuarem a dirigir o ministério da saúde, passarão à história pelas suas responsabilidades na gestão criminosa, responsável pelas dezenas de milhares de mortes. Se saírem, sairão como fracassados, incompetentes.
 

De qualquer forma, os militares ficarão com a imagem de associados ao governo mais corrupto, mais incompetente, mais degradador da imagem do Brasil no mundo, mais comprometido pela morte de um brasileiro a cada minuto. Fracassam na sua prova de fogo.
  
 

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