Não se faz mais ditaduras como antigamente

"Em sua cruzada rumo ao autoritarismo, [Bolsonaro] insiste em tentar ressuscitar a ameaça comunista para atrair os militares para o seu lado", escreve Alex Solnik, do Jornalistas pela Democracia, que avalia que Bolsonaro tenta implantar uma ditadura nos moldes antigos, o que não é possível

(Foto: Marcos Corrêa/PR)
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Por Alex Solnik, do Jornalistas pela Democracia

Não há dúvida que Bolsonaro quer implantar uma ditadura para chamar de sua, parecida com aquela dos anos 60.

O problema é que não estamos nos anos 60.

Ditaduras militares, naquele período, emergiram em toda a América Latina feito cogumelos, com forte apoio de Tio Sam.

Era medo de que o continente fosse contaminado pelo vírus vermelho que vingara em Cuba em 1959.

A ameaça soviética aos regimes democráticos justificava o fechamento político. A democracia, por sua característica libertária, poderia ser a porta pela qual o comunismo entraria.

É mais ou menos lógico que o país mais capitalista do mundo envidasse todos os esforços, gastasse dólares e tanques e patrocinasse banhos de sangue para impedir o avanço da ideologia que intentava destruí-lo.

Eram os anos da Guerra Fria. Luta de vida ou morte entre as duas maiores potências atômicas. Temia-se a Terceira Guerra Mundial. Foi fácil convencer os brasileiros de que uma ditadura militar seria melhor que uma ditadura comunista.

Bolsonaro pode ser muito moderninho por ter descoberto antes dos outros políticos brasileiros a manipular multidões por meio de twitter, whatsapp e outras ferramentas, mas sua cabeça vive nos anos 60.

Em sua cruzada rumo ao autoritarismo, insiste em tentar ressuscitar a ameaça comunista para atrair os militares para o seu lado, mas não há mais União Soviética há 29 anos, nem sinal de proselitismo comunista no mundo.

Países comunistas não têm demonstrado apetite em exportar seus modelos.

Não há mais comunistas escondidos embaixo da cama para comer criancinhas.

O confronto entre as duas maiores potências, EUA e China, não é ideológico, é econômico.

Não há guerra entre comunismo e capitalismo porque a China também é mezzo capitalista.

Nem a um país nem a outro interessa apoiar ditaduras na América Latina. O que lhes interessa é vender e comprar da América Latina e qualquer conflito é inimigo do comércio.

Duvido que Trump ou Xi Jinping apoiassem uma ditadura Bolsonaro.

O grande erro de Bolsonaro foi não ter percebido que a forma atual de criar ditaduras não é pela força, é pelo voto, como mostrou o húngaro Victor Orbán: com maioria folgada no Parlamento conseguiu aprovar leis que o transformaram em ditador.

Bolsonaro, em vez de buscar maioria no Parlamento tratou de insultá-lo e ofendê-lo, confiando nos conselhos de seu amalucado guru da Virgínia.

Em vez de fortalecer o partido pelo qual se elegeu, ele o destruiu.

Encheu o governo com militares, que não têm votos no Congresso, e não com políticos, que os têm.

Agiu da mesma forma com o STF, mandando suas matilhas digitais para cima dos ministros, em vez de manter com eles uma relação republicana.

O que conseguiu foi unir os dois Poderes – ameaçados por ele - contra o seu. Não por quererem derrubá-lo, como ele propala, mas para não serem esmagados por ele.

E passou a colecionar derrotas homéricas – a última delas foi a devolução da MP dos reitores.

Indignado e humilhado, procura agora incitar as Forças Armadas a exercerem um inexistente Poder Moderador, ou seja, a ficar a seu lado contra os dois Poderes que o contestam, uma aberração que não existe na constituição, só na sua cabeça binária.

Os Três Poderes devem se entender entre si com base no que diz a constituição para resolverem suas diferenças. Sem interferências. Muito menos armadas.As Forças Armadas, além de não constituírem um Poder, mas uma instituição do estado, jamais poderiam moderar nada, porque quem tem armas não modera - impõe.

Os Três Poderes são e vão continuar sendo desarmados, queira ou não queira Bolsonaro.

Não adianta chamar o irmão mais forte para bater no cara de quem apanhou depois de o provocar.

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