Os anéis do autoritarismo

Hoje, o novo fascismo tenta bombear todas as veias possíveis dos corações dos brasileiros. Se quisermos vencer Bolsonaro e, mais ainda, o bolsonarismo, é preciso que muitos parem de fazer vista grossa, de achar que não é nada. Cuidado, brasileiros! Bolsonaro oferece balas de cicuta

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Lembramo-nos bem. Foi em 2016, em Brasília. O então deputado Jair Bolsonaro, ao dar o seu voto no processo de impeachment para destituir a presidente Dilma Rousseff, vomitou – não cabe outra palavra – celebração ao coronel Carlos Brilhante Ustra, notório torturador. Irrelevante? Não! É relevantíssimo. A fala foi asquerosa! Má! Perversa! Absurda no propósito, no conteúdo e na forma. Um sinal evidente da necrose daquele momento. Ouso dizer que foi ali que a ultradireita capturou mentes insanas e começou a ganhar força numérica para as eleições. Já volto ao ponto.

O ano de 2016 se foi, e anos mais destemperados vieram. 

Em 2018, com a eleição presidencial, fomos capazes de tirar novas lições. O redemoinho não se foi. Mas se as democracias estremecem, também elas podem ressurgir mais resistentes. Mas tudo a seu tempo. 

Em 2020, com a pandemia de Covi-19, o comando desastroso da administração governativa federal aumentou a nossa coleção de incertezas. Sim, os anos de 2016 a 2020 retrataram fraturas expostas e testemunhamos a História.  

Para quem quer pensar os dilemas atuais do (des)governo federal, recomenda-se assistir à interlocução entre o psicanalista Antonio Quinet e a filósofa Márcia Tiburi, cujo título “A massa Brasil”, faz parte da série “Psicanálise, pulmão de um mundo irrespirável”. O evento está disponível no YouTube (ver aqui) e é um estímulo a cérebros que querem refletir. 

A “live” de Antonio Quinet, com registro da transmissão ao vivo pelo Instagram no dia 16 de agosto, foi uma aula de resumo biográfico do Brasil atual e análise filosófico-política. Em seus estilos, Antonio e Márcia expuseram conceitos, não sem antes provocarem os telespectadores: por que afinal uma pessoa com vocação explicitamente autoritária, misógina, obscurantista, homofóbica, anti-cultura, anti-indígena chega aos cumes do Estado como presidente? 

Então agora retomo o fio lá do primeiro parágrafo, doravante com ajuda de Antonio e Márcia, a fim entender o voto de Bolsonaro no processo de impeachment que resultou na destituição da presidente Dilma Rousseff, voto que virou uma oferenda macabra porque dedicado com louvor ao sinistro coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, torturador de presos e classificado pelo atual presidente da República como “herói nacional”. 

Ali, sim, foi um registro gravíssimo, contexto perigoso da história e rampa oficial para Bolsonaro lançar a sua candidatura ultradireitista e apresentar a sua chapa, denominada ironicamente por Antonio Quinet de “chapa da Ustra-direita”.  

Dito isso, vamos ao que interessa. Elevemos um pouco o nível da conversa. Não é difícil justificar, segundo os rigores psicanalíticos, que a fala de Bolsonaro em defesa de Ustra registra uma pulsão de morte, uma satisfação sanguinária, que acaba sendo saboreada pelos eleitores, que gozam com o discurso de destruição. A arenga de transformar o outro em objeto de ódio é o deleite de muitos. O velho Freud, em “Por que a Guerra?”, não estava errado. 

O que nos espanta é o não espanto de muitos brasileiros diante de coisa tão ímpia. Bolsonaro agiu como um magnata supremo da brutalidade moderna. Seu voto foi uma violência arreganhada, pois como lembrou Antonio Quinet, o torturador – pasmem!! – foi elevado à condição de “herói”. 

Na “política da cólera”, a tecnologia política de Bolsonaro consiste nisso: passar uma rede de arrasto a fim de capturar fascistas e simpatizantes. E foi ali, na apoteose do orador, numa fala sem medo de punições, num espetáculo de horror, que o presidenciável celebrou Ustra ao dizer que ele foi o “pavor” de Dilma Rousseff quando torturada na ditadura. O discurso fez a massa entrar em êxtase e o fascismo subiu dois degraus com Bolsonaro no comando. 

Bolsonaro desarruma e espalha seus perdigotos e levanta suas poeiras. Cabe a quem preza pela democracia e ao Estado de Direito colocar esclarecimentos na janela. Precisamos aprofundar as nossas reflexões. Só quem está disposto a refutar erros é capaz de abandonar ideias violentas. Entender o Brasil à luz da Psicanálise é um passo importante. Que a “live” de Quinet e Tiburi nos sirva de aprendizado, porque Bolsonaro já está em campanha pela reeleição e avança na direção de 2022. 

Hoje, o novo fascismo tenta bombear todas as veias possíveis dos corações dos brasileiros. Se quisermos vencer Bolsonaro e, mais ainda, o bolsonarismo, é preciso que muitos parem de fazer vista grossa, de achar que não é nada. Cuidado, brasileiros! Bolsonaro oferece balas de cicuta. 

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A Folha de S. Paulo, ao publicar um editorial cujo título é “Jair Rousseff” (sábado, 22.08), não obstante do que ali foi discutido, o jornal agiu de forma imprópria e cruel, pois colou a sequela da ditadura no nome da vítima torturada. Associar o nome de Dilma ao de alguém que celebra a tortura, é, sim, para a ex-presidente, mais uma agressão recebida. Infame.

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