Porque gente não é coisa

Você precisa saber que gente que mexe no lixo é só gente que mexe no lixo: não é o lixo; não confunda o homem com a coisa. Isso pode ter efeitos tremendos, sobretudo, para você

Porque gente não é coisa
Porque gente não é coisa (Foto: Divulgação)

Você pode ser o que for, o que bem entender mas se não for bom de nada servirá; pode ter títulos, posses, certificados e reconhecimentos; poder ser laureado, receber todas as comendas e medalhas de honra ao mérito mas se de fato, não for bom, você terá pouca valia.

Sua voz pode ser mansa como um lago na montanha, pode ser suave como as melhores brisas matinais; você pode recitar versículos encantados do corão ou da bíblia; pode ter toda a torá na ponta da língua mas se seu coração não buscar pureza e leveza de nada, mas de nada, adiantará.

Se suas mãos finas e bem tratadas não forem capazes de abraçar mãos rudes, calejadas e sofridas; se sua sapiência não te fizer perceber que crianças "de rua" não existem; são só crianças e ponto final. Homens e mulheres fazem crianças e as deixam. Deixam-nas em terrenos, ermos, sacos plásticos, no banco da praça ou na caçamba do lixo. A rua é uma possibilidade de sobrevivência e que essas crianças ainda tem.

Possibilidade que por sinal, vai se tornando cada vez mais remota e distante, distante, distante...

Você precisa saber que gente que mexe no lixo é só gente que mexe no lixo: não é o lixo; não confunda o homem com a coisa. Isso pode ter efeitos tremendos, sobretudo, para você. Nesse sentido e da mesma forma é preciso que compreenda que gente não é gado para ser ferrado no lado, nas costas ou na testa, sobretudo, na testa. Meu amigo, minha amiga a lição é simples: gente é gente e gado é gado. Não confunda! Isso, de novo, pode ser terrível, sobretudo, para você.

Se sua sensibilidade não tiver a capacidade de identificar a maldade que por meio da miséria, da pobreza e do abandono assola com vidas humanas; aliás, flagelos planetários e geradores de toda sorte de depressão, angústia e suicídio; se o apanhado de experiências que compõe sua magnifica vida não te garantir condições de identificar que a espécie humana está submetida a grande sofrimento, então, é preciso que se diga que algo de muito errado acontece com você.

Você precisa ser bom; ter compaixão da infinita dor humana; precisa achar estranho tanta morte e violência; precisa estranhar tantos soldados em ponto de guerra; tantas armas e tanto sangue derramado.

Ser bom não é ser bobo ou manipulável; é ser parte ativa e racional de esforços sociais e políticos pela garantia dos direitos mínimos das pessoas para que possam comer e que alimentadas consigam ir e ficar na escola e ficando na escola consigam escrever seu nome e desta conquista magnífica e revolucionária se identifiquem, se reconheçam como gente porque gente é o que todas elas são.

Ser bom é saber que a lei precisa ser cumprida por todos e que não é possível viver fora da lei. Isso é a barbárie. A barbárie não é o que está fora dos muros da cidade, do burgo ou do condomínio de bacana! Barbárie? Simples! É o não cumprimento da lei.

Ser bom, meus caros, é saber que existem outros além de mim; outras crianças além da minha filha; outras mulheres além da minha mãe ou minha irmã e outros irmãos além dos filhos do meu pai.

Experimente essa sensação e veja o amplo horizonte de possibilidades que irá se abrir para você. Tente... Eu sei que você consegue! Tente ser bom!

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