Maria Rita Kehl avatar

Maria Rita Kehl

Psicanalista, é autora, entre outros, de Tortura e sintoma social (Boitempo, 2019)

16 artigos

HOME > blog

Saudades do Brasil

Seleção de versos de clássicos da música brasileira

Selo Fonte Preferida no Google do Brasil 247

Seleção de versos de clássicos da música brasileira

Por Maria Rita Kehl, no portal A Terra é Redonda

O Brasil tá matando o Brasil/ O Brasil, SOS ao Brasil[i]

Prepare seu coração pras coisas que eu vou contar/ Eu venho lá do sertão, eu velho lá do sertão, e posso não lhe agradar/ aprendi a dizer não/ ver a morte sem chorar/ e a morte, o destino, tudo/ a morte, o destino, tudo/ estava fora de lugar/ eu vivo pra consertar[ii]

Trabaia, trabaia, negro/ trabaia, trabaia, negro/ o negro está molhado de suor/ as mãos do negro está que é calo só/ ai, meu Senhor/ negro tá velho e essa terra tão dura, tão seca, tão poeirenta[iii]

Quando olhei a terra ardendo, qual fogueira de São João/ eu perguntei, ó Deus do céu/ por que tamanha judiação? Qual braseiro, que fornalha/ nem um pé de plantação…[iv]

Tanta gente se arvora a ser Deus/ e promete tanta coisa pro sertão/ Que vai dar um vestido pra Maria/ que vai dar um roçado pra João// Eu também tô do lado de Jesus/ Mas eu acho que ele se esqueceu/ de dizer que na terra a gente tem/ que arranjar um jeitinho pra viver…[v]

Acorda, amor: eu tive um pesadelo agora/ sonhei que tinha gente lá fora, batendo no portão/ era a dura, numa muito escura viatura/ minha nossa santa criatura: chame ladrão! Chame ladrão![vi]

A justa já vem/ e vocês digam que eu tô me aprontando/ enquanto eu vou e desguiando/ vocês vão a polícia/ e ao delerusca vão se desculpando[vii]

Eu hoje estou pulando que nem sapo/ pra ver se escapo dessa praga de urubu/já estou coberto de farrapo/ eu vou acabar ficando nu/ meu paletó parece estopa/ e eu pergunto com que roupa que eu vou ao samba que você me convidou[viii]/

Sapato de pobre é tamanco/ a vida não tem solução/ morada de rico é palácio/ e casa de pobre é barracão[ix]…//

Os boias frias quando tomam umas biritas espantando a tristeza/ Sonham com bife a cavalo, batata frita, e a sobremesa/ é goiabada cascão, com muito queijo…[x]/

Quando o oficial de justiça chegou lá na favela/ e contra seu desejo, entregou pra seu Narciso/ um aviso, uma ordem de despejo// assinada Seu Doutor/ assim dizia a petição// dentro de dez dias eu quero a favela vazia/ e os barracos todos no chão// é uma ordem superior[xi]

Nasci lá na Bahia de mucama com feitor/ meu pai dormia em cama, minha mãe no pisador/ o meu pai dizia assim: venha cá/ minha mãe dizia assim: sem falar[xii]

Quando seu moço nasceu meu rebento/ainda não era hora dele rebentar/ veio chegando com cara de fome/ e eu não tinha nem nome pra lhe dar[xiii]

Eu um dia cansado da fome, da fome que eu tinha/ que seca era aquela, que fome que eu tinha/ que seca danada no meu Ceará// eu juntei numa maleta velha as coisas que eu tinha/ duas calça velha e uma violinha/ e eu pau de arara toquei para cá (…)Virgem Santa, que a fome era tanta que até parecia/ que mesmo xaxando meu corpo subia/ igual se tivesse querendo avoá[xiv]

“… foi ali, seu moço/ que eu, Mato Grosso e o Joca/ Construímos a nossa maloca/Mas um dia, eu nem quero me alembrá/ veio os homens com as ferramentas, o dono mandou derrubar//… que tristeza que nós sentia/ cada tábua que caia/ doía no coração[xv]

“Noite chegou outra vez/ de novo na esquina a gente se vê/ todos se acham mortais/ dividem a lua, a noite, até solidão// Nesse clube, sozinha a gente se vê/ pela última vez/ a espera do dia/ naquela calçada fugindo de outro lugar[xvi]…”

“Existirmos, a que será que se destina?[xvii]

Mas o dia vai chegar/ e o mundo vai saber/ não se vive sem se dar// quem trabalha é que tem/ direito de viver/ pois a terra é de ninguém[xviii].

Notas

[i] “Querelas do brasil”, Aldir Blanc e Maurício Tapajós

[ii]“Disparada”, Geraldo Vandré

[iii]“Trabalha, negro”, Sérgio Ricardo

[iv]“Asa Branca”, Luiz Gonzaga

[v]“Procissão”, Gilberto Gil

[vi]“Chame ladrão”, Chico Buarque

[vii] “Na subida do morro”, Geraldo Pereira cantada por Moreira da Silva

[viii]“Com que roupa”, Noel Rosa

[ix]“Sapato de pobre” J. Junior e Luís Antonio

[x] “Rancho da goiabada”, João Bosco e Aldir Blsnc

[xi]“Despejo na favela”, Adoniran Barbosa

[xii]“Maria moita”, Carlos Lira

[xiii]“Meu guri”, Chico Buarque

[xiv] “Comedor de gilete”, Carlos Lyra

[xv] “Saudosa Maloca”, Adoniram Barbosa

[xvi] “Clube da Esquina”, Milton Nascimento e Lô Borges

[xvii] “Cajuína”, Caetano Veloso

[xviii]“Terra de ninguém”, Paulo Sérgio Valle

 

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.