Presentes em celulares, carros elétricos, turbinas eólicas e equipamentos de alta precisão, esses minerais ajudam a explicar por que o domínio das cadeias produtivas se tornou decisivo no século XXI
Você certamente já ouviu falar em terras raras. O nome parece distante, quase coisa de laboratório ou de mineração pesada, mas elas estão muito mais perto da nossa vida cotidiana do que a gente imagina.
Esses minerais estão em tecnologias que usamos todos os dias: celulares, computadores, telas, fones de ouvido, carros elétricos, turbinas eólicas, equipamentos médicos, sistemas de alta precisão e ímãs permanentes.
Ao falar de terras raras, portanto, não estamos tratando apenas de mineração. Estamos falando da base material de boa parte da vida moderna.
Quando comecei a ler mais sobre o tema, uma coisa me chamou atenção: a China não lidera esse setor apenas porque tem reservas importantes. Lidera porque tratou as terras raras como parte de uma estratégia nacional de desenvolvimento, articulando mineração, pesquisa, tecnologia, indústria e planejamento de longo prazo.
É por isso que essa experiência pode inspirar o Brasil neste momento. O país reúne uma das maiores reservas de terras raras do mundo, frequentemente apontada como a segunda maior, atrás apenas da China. Mas ter esse patrimônio mineral é apenas o ponto de partida.
A questão central é como transformar essa riqueza em pesquisa, beneficiamento, tecnologia, indústria e agregação de valor. No século XXI, o valor das terras raras não está apenas na extração. Está na capacidade de dominar as etapas mais sofisticadas da cadeia produtiva.
Quando minério vira estratégia
A China trata as terras raras como parte de uma estratégia integrada de desenvolvimento. Ao longo das últimas décadas, combinou planejamento de longo prazo, pesquisa científica, política industrial, regulação ambiental e domínio das etapas de maior valor agregado da cadeia.
É aqui que o tema fica mais interessante para mim. As terras raras mostram como, no século XXI, certos minerais deixaram de ser apenas assunto de mineração e passaram a integrar uma agenda muito mais ampla, ligada à tecnologia, à indústria, à transição energética e ao desenvolvimento sustentável.
O verdadeiro valor, portanto, não está apenas em retirar o minério do subsolo. Está na capacidade de transformá-lo em tecnologia. É nesse ponto que a China se destaca: sua liderança não se explica apenas pela existência de reservas naturais, mas por uma escolha de desenvolvimento baseada em organização, continuidade e capacidade tecnológica.
Uma construção de décadas
Essa trajetória não surgiu de uma hora para outra. A base da atuação chinesa no setor começou a ser construída ainda nas décadas finais do século XX, quando o país passou a tratar as terras raras como parte de uma estratégia industrial de longo prazo.
A partir dos anos 1980, com a reorientação econômica conduzida por Deng Xiaoping, a China combinou abertura ao investimento, coordenação estatal e prioridade a setores considerados estratégicos. Foi nesse contexto que as terras raras deixaram de ser vistas apenas como uma atividade extrativa e passaram a integrar um projeto mais amplo de desenvolvimento tecnológico.
Com o tempo, esse projeto avançou para etapas cada vez mais complexas, como refino, separação química, produção de materiais avançados e aplicações industriais de alto valor agregado.
Nos anos 1990 e 2000, a estratégia ganhou escala. A China ampliou sua produção e se consolidou como uma das principais fornecedoras globais. Mas o ponto decisivo não foi apenas produzir mais. O país também passou a organizar melhor o setor, com mecanismos de controle, estímulo à agregação de valor e fortalecimento de empresas nacionais.
A lógica era clara: usar a vantagem na produção para avançar nas etapas mais sofisticadas da cadeia.
Valor das cadeias produtivas
A partir da década de 2010, a China passou a reorganizar o setor de terras raras com mais rigor. O objetivo deixou de ser apenas ampliar a produção e passou a envolver também qualidade, tecnologia, regulação ambiental e melhor coordenação da cadeia produtiva.
Essa mudança marcou uma nova etapa. As terras raras passaram a ser tratadas de forma cada vez mais explícita como recurso estratégico, conectado a políticas industriais mais amplas e a setores como veículos elétricos, energia limpa, eletrônicos, materiais avançados e sistemas de alta precisão.
Esse movimento se aprofundou com a incorporação do tema aos planos nacionais de desenvolvimento, como o 13º Plano Quinquenal e seu Plano Nacional para Indústrias Estratégicas Emergentes, que conecta as terras raras a setores como novas energias, novos materiais, alta tecnologia e manufatura avançada.
A mesma orientação aparece no Made in China 2025 e no livro branco Situação e Políticas da Indústria de Terras Raras da China, que reforçam a importância da inovação, da proteção ambiental e do uso racional desses recursos.
Mais recentemente, o Regulamento de Gestão das Terras Raras, aprovado pelo Conselho de Estado e em vigor desde 1º de outubro de 2024, consolidou essa abordagem ao tratar o setor a partir de temas como proteção dos recursos, desenvolvimento racional, segurança industrial, inovação tecnológica e desenvolvimento verde.
Em outras palavras, a China não olha para as terras raras apenas como minério, mas como parte de uma política articulada de longo prazo.
É nessa passagem que está o ponto central. O foco deixou de estar apenas na matéria-prima e se deslocou para inovação, processamento, patentes e aplicações de alto valor agregado. É justamente aí que se concentra o maior valor econômico e tecnológico.
Hoje, o resultado dessa trajetória é visível. A China tem papel central não apenas na produção global de terras raras, mas também em etapas críticas do processamento e da transformação industrial, das quais dependem setores inteiros da economia contemporânea.
Mineração, ciência e futuro
A principal lição dessa trajetória é simples, mas decisiva: no século XXI, possuir recursos naturais já não basta. O que define o lugar de um país nas cadeias globais é sua capacidade de transformar esses recursos em conhecimento, tecnologia e indústria.
As terras raras mostram exatamente isso. Elas começam no subsolo, mas seu verdadeiro valor aparece depois: nos laboratórios, nas fábricas, nos centros de pesquisa, nas patentes e nos produtos que moldam a vida contemporânea.
É por isso que a experiência chinesa ajuda a ampliar o olhar sobre o tema e pode servir de inspiração para o Brasil. Não se trata apenas de mineração. Trata-se de planejamento, inovação e desenvolvimento de longo prazo.
No fim, falar de terras raras é falar de futuro. E esse futuro será cada vez mais definido por quem souber conectar recursos naturais, ciência, indústria e tecnologia em uma mesma estratégia.
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