Terror & golpe

"Não é preciso ser admirador de Maquiavel para entender que uma possível ameaça de atentado terrorista pode ser de grande utilidade para um governo interessado em valorizar toda e qualquer iniciativa capaz de ajudar na aprovação de um pedido de impeachment perante uma população desconfiada de seus gestos e intenções", escreve Paulo Moreira Leite, diretor do 247 em Brasília; "Se é certo que nenhuma pista contra ações de barbárie que podem levar a morte de inocentes pode ser desprezada, toda iniciativa para transformar um episódio inconclusivo em grande espetáculo é uma demonstração de desprezo absoluto pela inteligência do cidadão brasileiro e contraprodudente numa investigação séria, que necessita de prudência e segredo, em vez de espalhafato e sensacionalismo."

"Não é preciso ser admirador de Maquiavel para entender que uma possível ameaça de atentado terrorista pode ser de grande utilidade para um governo interessado em valorizar toda e qualquer iniciativa capaz de ajudar na aprovação de um pedido de impeachment perante uma população desconfiada de seus gestos e intenções", escreve Paulo Moreira Leite, diretor do 247 em Brasília; "Se é certo que nenhuma pista contra ações de barbárie que podem levar a morte de inocentes pode ser desprezada, toda iniciativa para transformar um episódio inconclusivo em grande espetáculo é uma demonstração de desprezo absoluto pela inteligência do cidadão brasileiro e contraprodudente numa investigação séria, que necessita de prudência e segredo, em vez de espalhafato e sensacionalismo."
"Não é preciso ser admirador de Maquiavel para entender que uma possível ameaça de atentado terrorista pode ser de grande utilidade para um governo interessado em valorizar toda e qualquer iniciativa capaz de ajudar na aprovação de um pedido de impeachment perante uma população desconfiada de seus gestos e intenções", escreve Paulo Moreira Leite, diretor do 247 em Brasília; "Se é certo que nenhuma pista contra ações de barbárie que podem levar a morte de inocentes pode ser desprezada, toda iniciativa para transformar um episódio inconclusivo em grande espetáculo é uma demonstração de desprezo absoluto pela inteligência do cidadão brasileiro e contraprodudente numa investigação séria, que necessita de prudência e segredo, em vez de espalhafato e sensacionalismo." (Foto: Paulo Moreira Leite)
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Não vamos nos enganar. Não é preciso ser um admirador de Maquiavel para entender que num momento de grandes incertezas políticas como aquele que enfrentamos no Brasil a denúncia de uma possível ameaça terrorista pode ser de grande utilidade para forças  que ocupam provisoriamente a presidência da República e necessitam, como é visível a cada dia, "mostrar serviço" aos olhos de uma população desconfiada de gestos e intenções para manter-se no cargo de qualquer maneira.  

Vivemos uma situação de desagregação institucional em que tudo é política, como reconheceu a líder do governo Rose de Freitas, ao explicar por que o Senado afastou Dilma sem prova de crime de responsabilidade.

Não  é preciso ficar com complexo de republica bananeira, porém. Basta lucidez. 

Na França que já deu lições de liberdade, igualdade, fraternidade, o mesmo presidente François Hollande que enfrenta uma insurreição de trabalhadores em defesa de seus direitos -- situação que pode repetir-se no Brasil caso Michel Temer siga em frente com seu programa de aniquilar a CLT -- transformou a ameaça terrorista na preocupação número 1 de seu governo.

Incapaz de dar respostas aos problemas da vida cotidiana da maioria da população, como desemprego, perdas salariais, recessão, desde o final de 2015 Hollande multiplica medidas de exceção que produzem indignação --a ministra de Direitos Humanos renunciou ao cargo em protesto -- e pouco tem servido  para evitar novas tragédias, como demonstrou o ônibus assassino de Nice, menos de um ano depois do ataque ao Charlie Hebdo e ao Bataclan.

Mesmo assim, não há dúvida que a campanha do medo operou um previsível milagre de natureza eleitoral. Transformou Hollande, até então um George W Bush da social-democracia francesa,  num candidato minimamente competitivo para enfrentar o fascismo nas eleições presidenciais.

Essa considerações recomendam  prudência e bom senso diante da prisão de dez brasileiros que podem vir a ser um dia considerados suspeitos de terrorismo. Para tanto, é bom lembrar, será preciso que informações hoje em estagio muito preliminar  se transformem em indícios e provas. Não custa sublinhar -- mesmo fora de moda -- o principio da presunção da inocência. Ninguém quer construir uma nova Guantânamo, certo?

Está claro que nenhuma pista contra a ameaça do terror pode ser desprezada, pois, se forem indícios consistentes e corretamente investigados, podem impedir atos de  barbárie  que ameaçam vidas inocentes, inclusive crianças.

O problema é que toda iniciativa para transformar um episódio inconclusivo  em grande espetáculo, sem justificativas razoáveis, equivale a uma demonstração de desprezo absoluto pela inteligência do cidadão brasileiro. Também é um ato contraproducente do ponto de vista de toda investigação, que envolve material de inteligência sensível, necessita de prudência e segredo, em vez de espalhafato e sensacionalismo.

O desvio para os holofotes é apenas parte do problema, porém. Outro sinal é político e diplomático.

A postura mostra um passo, no  governo Michel Temer, para alinhar o aparato policial e jurídico do estado brasileiro com as prioridades do governo norte-americano. É compreensível, diante do isolamento internacional do golpe. Deve ser visto como mais  um capítulo num programa de generosas gentilezas externas que inclui, como grande troféu, a abertura do pré-sal da Petrobras a grandes empresas estrangeiras.

Coerente com uma diplomacia de preservar de qualquer maneira a ordem vigente no Oriente Médio, endereço de reservas de petróleo vitais para sua economia e para o faturamento de uma parte de seus maiores gigantes econômicos, Washington transformou a luta contra o terrorismo de origem árabe na pedra de toque de sua ação internacional e dos chamados programas de cooperação. 

Não custa lembrar que o principal reflexo, no Brasil, do atentado de 11 de setembro foi um reforço das investigações da CIA e outros órgãos do serviço secreto contra imigrantes palestinos na região da Tríplice Fronteira, com base em suspeitas que a própria embaixada dos EUA em Brasília considerava pouco mais do que risíveis.

Não por acaso, Washington não deixou de aplaudir, uma década e meia depois, a lei anti-terrorismo aprovada pelo Congresso, por iniciativa do governo Dilma.

Interessada em embelezar toda e qualquer medida do governo Temer que possa contribuir para a aprovação definitiva do impeachment pelo Senado, a mídia grande não perdeu a oportunidade de ressaltar a "colaboração" do serviço secreto dos EUA nas investigações. A historia diplomática  dos dois países, marcada por longos períodos de adaptação e mesmo submissão do lado brasileiro, com raros mas reais momentos de independência e soberania, permite acreditar que seja muito mais do que isso.

Há outro ponto a observar.

É certo que, por sua própria natureza, as ações terroristas não obedeçam a uma lógica previsível nem racional. Não custa ponderar porém que seus alvos mais frequentes envolvem países e governos que tem uma postura agressiva nos conflitos do Oriente Médio, participando ativamente de operações de apoio em relação a diplomacia norte-americana. Os atentados de Madri e Londres ocorreram depois que os governos da Espanha e da Grã Bretanha se engajaram na invasão do Iraque. A França entrou no radar depois de patrocinar a queda de Kadhafi, na Líbia e realizar oções de guerra na Siria e no Iraque. Antes disso, costumava ser poupada depois que, ao lado da Alemanha e governo brasileiro, recusou apoio a Bush guerra do Iraque.

Diversos estudiosos consideram que até agora a postura diplomática do governo brasileiro, alinhado com a defesa intransigente da soberania de cada povo para escolher e definir seus governos, ajuda a entender porque o país tem sido preservado, até o momento, de ações dessa natureza.

Isso não representa garantia nenhuma, muito menos na conjuntura de um país que irá sediar uma Olimpíada. Mas mostra a necessidade de se evitar toda e qualquer medida fora do tom adequado.   

O único suspeito real até agora é o ministro da Justiça Alexandre Moraes, que acabou corrigido pelo juiz do caso por dizer mais do que poderia.

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