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João Jorge Pimenta

Estudante de Letras. Militante do Partido da Causa Operária (PCO) e da Aliança da Juventude Revolucionária (AJR). Colunista do Diário Causa Operária (DCO)

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Três pessoas e uma arma: uma homenagem ao cemitério de impérios

É preciso defender os povos oprimidos. É preciso saudar a insurreição popular que pôs fim à ocupação americana

Guerrilheiros talibãs (Foto: Reuters)

João Pimenta, DCO

Imagine-se na seguinte situação: você está numa sala vazia, há apenas 3 pessoas, cada uma com um revólver, você é uma delas, um soldado Ranger americano é outra, o último é militante Talibã. A sala fica no deserto em volta de Candaar, no Afeganistão. Os Talibã e o americano apontam, um para outro, o revólver e a coisa estabelece-se num impasse. Você é o fiel da balança, o que você faz?

Este exercício mental é interessante, pois reduz o confuso debate que a direita e os seus lacaios dentro da esquerda estão travando contra nós, a esquerda anti-imperialista e revolucionária. O cenário pintado é de uma guerra, é de uma ação concreta: americanos e Talibãs estão se digladiando, o que fazer? Não é possível fazer exercícios retóricos, não é possível atirar em um sem, na prática, apoiar o outro.

Muitos dirão: violência não é política. Estão errados. Carl von Clausewitz, um dos maiores teóricos da guerra, uma vez disse: a guerra é a continuação da política por outros meios. Não poderia ser diferente, a política é a luta de classes, a guerra civil ou de nações é a forma mais extremada dessa luta de classes.

Setores da direita bolsonarista, da direita tucana, da imprensa incrivelmente vendida ao imperialismo e até da esquerda nacional passaram a semana criticando o PCO por saudar a vitória do Talibã e do povo afegão sobre os EUA. Para criticar-nos, dizem: o Talibã é contra os direitos das mulheres, fez isso, fez aquilo, fez aquele outro. Mas então o que propõem? Qual é o certo? É defender a ocupação americana? Alguns dizem e criam uma forma abstrata de política, pressionados pela pressão imperialista: você tem que ficar contra os dois. Tem que ser a favor da desocupação, mas não pode comemorar. Isso é a praga do centrismo.

Por isso a sala com o Talibã e o Ranger. Como ser contra um se apoiar o outro? Se atirar no americano você está salvando a vida do Talibã, aquele mesmo talibã pode cometer as atrocidades que a imprensa está divulgando. Se matar um soldado americano você está colocando o talibã um passo mais perto do governo. O inverso também é verdade. Atacar os EUA favorece o Talibã, a Al-Qaeda e outros. Atacar os jihadistas favorece os EUA.

A esquerda, até uns que se dizem comunistas, como Jones Manoel e o PCB, decidiram ficar contra o Talibã e criticar o PCO. Mas se estivessem no deserto, ou nas ruas de Candaar, o que fariam no meio da troca de tiros?

No fim a coisa se resume ao seguinte: de um lado temos um governo imperialista que seria, teoricamente, civilizado, respeita os direitos das minorias, do outro, bárbaros que lutam contra o estrangeiro que ocupou sua terra natal. O que valorizamos mais? civilidade ou autodeterminação? Esse é um falso debate, feito sob medida para os identitários de plantão, que receberam uma educação universitária cheia de preconceitos imperialistas.

O Afeganistão é um dos piores lugares do mundo em termos de desenvolvimento humano. A maior parte do país é rural, num deserto, a organização social é majoritariamente formada por tribos. Essas pessoas não têm acesso a nada, não tem nada. Lutam para sobreviver. Apenas 45% sabem ler. 33% não tem água potável. Apenas 35% têm acesso à energia elétrica. Entre 10% e 20% conseguem acessar a internet. Os capachos da CNN dizem que o Talibã é medieval. Erraram de novo. Ele é está mais próximo do Código de Hamurábi do que da Paris do século XII, curiosamente, o Afeganistão está, também, mais próximo da Mesopotâmia do que de uma nação medieval.

Na sua crítica ao programa de Gotha, Marx dá uma lição aos civilizadores de plantão: o Direito não pode ser maior que a estrutura econômica da sociedade e o desenvolvimento cultural condicionado por essa estrutura. Apliquemos isso ao Afeganistão: Economia com padrão de 5000 mil anos atrás, costumes de 5000 anos atrás, leis de 5000 anos atrás. Não é uma correspondência direta à relação leis/costumes/economia, mas não dá para o Afeganistão de agora virar o Leblon em termos de costumes.

A ideologia Talibã é uma expressão do profundo atraso social daquele povo. O imperialismo é o principal responsável por isso. Essa terra amaldiçoada teve que enfrentar a invasão mongol de Gengis Khan, os persas, depois o imperialismo Britânico, vários governos, fantoches de diversas nações. Em 1969, depois de 2000 anos de luta sangrenta e destrutiva, uma revolução acontece levando um partido comunista ao governo, parecia que uma era de desenvolvimento estava raiando. O mesmo imperialismo que hoje se diz civilizatório financiou grupos guerrilheiros que iriam se tornar o Talibã contra o governo comunista. Os stalinistas invadiram o país para manter o governo apoiado por eles, lutaram por mais de 10 anos, a guerra liquidou o País, o partido comunista local e a União Soviética. Ao fim de uma guerra sangrenta, o que sobrou era o Talibã, que comandou o país.

Querem falar que estes bárbaros eram fantoches dos EUA, isso não é verdade. Eles eram aliados de ocasião dos EUA. No governo, se tornaram inimigos dos EUA, pelo mesmo nacionalismo que os opôs aos russos.

Aquela terra amaldiçoada é apelidada de “O Cemitério de Impérios”, eles passaram milênios lutando contra o invasor estrangeiro, levaram abaixo o Império Britânico, faliram a URSS, que não era um império mas tinha porte de um, e agora derrotaram os Estados Unidos, a ditadura global.

A luta daquele povo deveria encher qualquer revolucionário de orgulho. Engels uma vez disse sobre eles: “Os afegãos são uma raça corajosa, dura e independente”. São mesmo, são a prova de que mesmo a menor nação do mundo, a mais fraca, tem o direito de resistir, e pode vencer o maior dos inimigos. O presidente de Cuba felicitou-os, nós também felicitamos, felicitamos todos aqueles que lutam contra o grande mal da nossa época.

Quem oprime as mulheres do Afeganistão? Os EUA ou o Talibã? Os EUA oprimem as mulheres de lá. Não fosse a destruição desse e de outros que vieram antes deles, eles poderiam ter se desenvolvido, progredido no sentido de um esclarecimento e de uma libertação geral. A chaga daquela região não é o Talibã, o Hamas e o islamismo. A chaga deles é uma bandeira azul, vermelha e branca, um século de bombas e do colonialismo imperialista. O Talibã foi apoiado pelo povo de lá para enfrentar os EUA, só assim se ganha da máquina de guerra imperialista. Foram apoiados porque uma lição eles aprenderam: é preciso exigir a sua liberdade, a sua autodeterminação. O Talibã é afegão, tem costumes afegãos, os invasores não. Ponto final.

Temos que nos livrar dos americanos e buscar desenvolver a região econômica, social e culturalmente. A colonização imperialista é o principal entrave a esse desenvolvimento.

Eu defendo a liberação da mulher, das nações, da raça humana, defendo o fim da opressão do homem pelo homem. Defendo o progresso humano, ou seja, o fim da sociedade de classes, o socialismo. Quem está do lado da libertação da mulher naquela luta, paradoxalmente, é o Talibã. Ideologia não define o nosso papel na história, o nosso papel na luta de classes define se somos progressistas ou reacionários. Neste caso, os mujahidin são os civilizatórios, e as Hillary Clinton os bárbaros selvagens.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.