Há uma ideia que circula, sobretudo entre progressistas, e que é falsa. A de que o fascismo é uma espécie de defeito de fábrica da alma humana. Um vício moral que acomete certos indivíduos e os torna, de nascença, cruéis. É uma ideia confortável. Se o fascista já nasce fascista, nós — os do bem — estamos a salvo. Mas a história não sustenta essa fábula. A base social do fascismo nunca foi um bando de monstros. Foi gente comum, vivendo o seu tempo. Monstros se criam e não nascem.
Essa base sempre se compôs de três grupos. Trabalhadores indignados porque, façam o que fizerem, “as coisas não mudam” — a promessa de melhoria adiada de geração em geração, até apodrecer em ressentimento. Conservadores com medo das mudanças nos costumes, mas que carregam também uma exigência ética diante da vida pública, e passam a vasculhar as instituições atrás de absurdos. Encontram. E, por fim, os que voltavam da guerra ou viviam o pavor da crise, gente que sentia na pele a matemática cruel dos poucos recursos disputados por muitos. Foi daí que nasceu o “nós contra eles”, com o nacionalismo servindo de régua para separar quem tem direito de quem não tem.
Repare: nenhum desses grupos deixou de habitar a sociedade e o seu tempo. Nenhum abriu mão da ideia de justiça ou de representação. E é aí que está o ponto. Essas pessoas se tornam permeáveis ao apelo autoritário justamente porque ainda acreditam em justiça — e a veem traída todos os dias. Não existe “genética” fascista. Existe um processo. Quando a política é criminalizada, quando fazer política vira sujeira e o debate de ideias é trocado pela suspeita de todos contra todos, perde-se a única ferramenta que a humanidade inventou para resolver briga sem sangue. O buraco fica ainda mais fundo quando as instituições que deveriam guardar a política e a justiça se revelam venais.
Por isso uma semana explica tanto. Nos últimos dias, cinco fatos se sucederam no Brasil. Cada um deles é uma aula sobre porque tanta gente honesta acaba nos braços da extrema direita.
Primeiro fato
O ex-líder do governo no Senado dá entrevista a um grande jornal e diz, sem pestanejar, que não vê problema nenhum em “pedir” a um “amigo” a compra de um apartamento de milhões. Também não vê nada de mais na relação entre um parlamentar e banqueiros metidos em fraude. Nessa naturalidade toda há uma ofensa à boa-fé e ao senso comum que qualquer um carrega no bolso. É um discurso que se descola por inteiro da vida real brasileira, apoiado numa ingenuidade autopiedosa que ninguém com dezoito anos vividos engole. O recado, embaixo, é claro: para nós, vale outra regra.
Segundo fato
Os filhos de um ex-presidente — todos com salário de parlamentar e nenhuma outra renda de origem conhecida — ostentam mansões aqui e lá fora, compram imóvel com dinheiro vivo, tocam lojas de chocolate que faturam milhões. E sustentam a mesma narrativa infantil: a de que um banqueiro fraudador teria mandado mais de 140 milhões para um filme ruim, de roteiro pueril, mais caro do que a soma das grandes produções brasileiras dos últimos anos, e nada disso seria ilegal. Argumento que revela desprezo pela inteligência do brasileiro. E é, acima de tudo, a exibição serena de quem sabe que nada vai lhe acontecer. Quem assiste de baixo aprende a lição na prática: o crime de colarinho branco compensa, e ainda desfila. Na copa.
Terceiro fato
Onze ministros regiamente pagos do Supremo inventam dois, três tetos novos para justificar a permanência de uma casta que, no Brasil, já lembra a nobreza francesa do século XVIII. Faz pouco mais de um mês, esses mesmos ministros tinham reafirmado o teto constitucional. Agora acham a fórmula para que o teto não valha para os nobres. Salário nababesco mais auxílio para tudo — roupa, creche, moradia, transporte, livro — enquanto, do alto da cadeira, negam indenização de tostões ao cidadão comum sob o argumento do “mero dissabor”. É um acinte à vida de qualquer trabalhador. Uma defesa corporativa do abuso, embalada pelo mesmo cinismo dos fatos anteriores. A casta recebe do Estado para se reproduzir e educar os próprios filhos (penduricalhos da creche à faculdade). A ralé — nós — corre atrás da sobrevivência.
Quarto fato
O presidente do Senado trava a tramitação da proposta que tira os trabalhadores de uma condição de semiescravidão. É o regime 6×1, um atraso diante do que já se considerava mínimo civilizatório no fim da Segunda Guerra, em 1945. A luta operária brasileira já apanhou cem anos de atraso graças aos ardis das elites, e o truque volta a rodar. Fingindo defender o trabalhador, o presidente do Senado inventa pretextos — “reduzir o período de transição”, como se fosse cortesia a quem trabalha — para reabrir o labirinto burocrático e empurrar a votação, quase certamente, para depois das eleições. É a aposta de que só ele é esperto o bastante para enganar o país. De que o domínio da máquina e o controle da informação bastam para iludir os trabalhadores, e de que, passado o voto e aliviada a pressão das urnas, os parlamentares voltam sossegados aos bolsos dos patrocinadores de sempre — aquela burguesia que ainda acha uma folga semanal uma vagabundagem nacional. Para essa gente, bom mesmo era a escravidão.
Quinto fato
E, quando as luzes da semana já se apagam, jornais e gente do próprio Ministério da Fazenda espalham “estudos” segundo os quais a dívida pública ficaria impagável nos próximos anos. Fingem que não estão mirando as maiores defesas (e talvez únicas que restaram) que a Constituição de 1988 levantou para o social diante do “mercado”. O ataque surdo aos mínimos de saúde e educação — tocado, inclusive, por gente de dentro do governo — parte da premissa de sempre: a de que o povo é burro e não entende o que se passa.
Depois reclamam que o fascismo cresce
Juntos, os cinco fatos pintam um país em que todas as elites — de qualquer coloração política — partilham a mesma certeza: podem tudo, sabem tudo e não devem satisfação a ninguém. Diante disso, o fascismo faz a oferta mais simples e mais perigosa que existe: acabar com tudo o que está aí. É uma oferta destrutiva. Mas ela encontra ouvido porque o que está aí se mostra, dia após dia, cínico e impune.
Nesse quadro, até o reformismo institucional de Lula soa quase como crime de lesa-consciência histórica — porque fica a impressão de que nada podemos contra a hipocrisia das elites, e de que só nos resta trabalhar para sustentar o andar de cima. Talvez ainda devêssemos agradecer as ameaças veladas. Como a sugestão, vinda lá do topo do Judiciário, de que se passará a “verificar todos os salários públicos” se a pressão sobre os “pobres juízes” não parar. Que ninguém se engane: ali não mora nenhuma ética, nenhum senso de justiça. É ameaça pura. Cidadãos de primeira classe — para quem a Constituição não vigora — lembrando aos demais privilegiados o dever da “fidelidade de classe”.
Quando a hipocrisia se torna norma, a violência vira resposta.
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