Brasil consolida um ano fora do Mapa da Fome com avanço histórico das políticas sociais

Conquista impulsionada pelo Plano Brasil sem Fome, Bolsa Família, valorização do salário mínimo e geração de empregos reforça redução da insegurança alimentar no país

Brasília (DF) - O ministro do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS), Wellington Dias - 20/10/2023
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247 – O Brasil completa um ano desde que voltou a deixar o Mapa da Fome da Organização das Nações Unidas (ONU), consolidando uma das mais importantes conquistas sociais dos últimos anos. Em julho de 2025, o país reduziu para menos de 2,5% a parcela da população em risco de subnutrição, retornando ao grupo de nações que conseguiram superar a fome em larga escala. Embora especialistas ressaltem que ainda existam desafios a enfrentar, o consenso é que o resultado representa um marco histórico obtido graças à reconstrução e ao fortalecimento das políticas públicas de combate à pobreza e promoção da segurança alimentar.

A informação foi destacada em reportagem da Agência Brasil, que ouviu pesquisadores, representantes do governo federal e especialistas em segurança alimentar. Todos apontam que a permanência do Brasil fora do Mapa da Fome depende da continuidade de políticas estruturantes nas áreas de geração de emprego, distribuição de renda, saúde, educação, agricultura familiar e proteção social.

O resultado alcançado coloca o Brasil no menor patamar histórico de insegurança alimentar grave. Atualmente, cerca de 77% da população brasileira possui segurança alimentar, isto é, acesso regular, permanente e suficiente a alimentos de qualidade. Ainda existem aproximadamente 6,5 milhões de brasileiros em situação de insegurança alimentar grave, número que permanece elevado, mas significativamente inferior ao registrado nos anos mais críticos da crise social e econômica enfrentada pelo país.

Políticas públicas impulsionaram a conquista

Para o pesquisador Lucas de Almeida Moura, do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Combate à Fome, vinculado à Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP), o sucesso decorre da integração entre diversas políticas públicas.

“Termos alcançado esse marco, pela segunda vez, de saída do Mapa da Fome, é resultado de uma intersetorialidade muito forte entre as políticas públicas. Isso precisa de fato ser mantido e, mais do que mantido, aprimorado.”

Segundo o pesquisador, combater a fome vai muito além da distribuição de alimentos. A estratégia depende da existência de uma ampla rede de proteção social capaz de assegurar renda, educação, saneamento básico, acesso à água, emprego, saúde pública e segurança para a população.

Lucas Moura é um dos autores do Índice Multidimensional de Insegurança Alimentar, divulgado neste ano e publicado na revista científica Sustainability. O estudo avalia a evolução da insegurança alimentar a partir de 12 indicadores de desenvolvimento sustentável e mostra que os maiores desafios permanecem concentrados principalmente em estados das regiões Norte e Nordeste.

Plano Brasil sem Fome tornou-se eixo central

Entre as principais iniciativas responsáveis pela melhora dos indicadores está o Plano Brasil sem Fome, coordenado pelo governo federal e articulado pelo Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome.

Segundo a secretária extraordinária de Combate à Pobreza e à Fome do ministério, Valéria Burity, o objetivo vai além da saída do Mapa da Fome.

“Essa é uma meta de longo prazo de impacto: a gente garantir direito à alimentação adequada saudável como um direito para toda a população brasileira.”

O plano reúne ações de fortalecimento da agricultura familiar, ampliação das políticas de proteção social, reajuste da alimentação escolar, apoio às cozinhas comunitárias, incentivo à geração de emprego e renda e expansão dos programas de abastecimento alimentar.

A prioridade, segundo a secretária, é garantir que as famílias que ainda vivem em situação de vulnerabilidade sejam incorporadas às políticas públicas em parceria com estados e municípios.

Emprego, salário mínimo e Bolsa Família explicam os avanços

A professora Semíramis Domene, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e diretora do Instituto Fome Zero, afirma que três grandes fatores explicam o retorno do Brasil ao grupo de países livres da fome.

O primeiro deles foi a redução das desigualdades sociais por meio da geração de empregos e da valorização da renda dos trabalhadores.

“Se o acúmulo de riqueza e desigualdade estão na raiz da fome, combater a desigualdade está na raiz do caminho para sair dela.”

Ela lembra que o Brasil registra atualmente o menor índice de desemprego dos últimos 13 anos e que a política permanente de valorização do salário mínimo garantiu reajustes reais superiores a 6% desde 2022, ampliando o poder de compra das famílias.

O segundo fator foi o fortalecimento das políticas públicas de proteção social. A especialista destaca os resultados positivos do Bolsa Família, que tem permitido às famílias melhorar a escolarização das crianças, ampliar sua renda e, em muitos casos, deixar o programa após conquistar autonomia econômica. Também cita a modernização do Cadastro Único e o fortalecimento do Programa Nacional de Alimentação Escolar.

O terceiro eixo foi o fortalecimento da produção nacional de alimentos, especialmente por meio do incentivo à agricultura familiar.

Segundo Semíramis, a retomada do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), que havia perdido recursos nos anos anteriores, foi decisiva para ampliar o abastecimento interno e fortalecer pequenos produtores rurais.

“Pode-se discutir abastecimento na perspectiva do alimento como função social e da terra não como um bem que favorece o mercado internacional de commodities.”

Mercado de trabalho fortalece perspectiva positiva

O economista Daniel Duque, pesquisador associado do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV), também atribui o avanço ao fortalecimento do Bolsa Família, à recuperação do mercado de trabalho e ao comportamento favorável dos preços dos alimentos.

Segundo ele, o aumento da renda das famílias permitiu recuperar o poder de compra, enquanto boas safras agrícolas entre 2023 e 2025 contribuíram para desacelerar a inflação dos alimentos.

Na avaliação do economista, o cenário permanece positivo.

“Até agora, não parece haver nenhum indicativo de reversão do emprego.”

A manutenção desse ambiente econômico, associada à continuidade das políticas sociais e dos programas de combate à pobreza, é apontada pelos especialistas como o principal caminho para consolidar definitivamente a permanência do Brasil fora do Mapa da Fome e ampliar ainda mais o acesso da população à alimentação adequada.

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