247 – O economista Paulo Nogueira Batista Júnior defendeu, em entrevista à TV 247, que o Brasil precisa se armar com urgência para enfrentar um cenário internacional cada vez mais perigoso, marcado pela decadência dos Estados Unidos, pelo avanço da extrema direita na América Latina e pela disputa geopolítica em torno dos recursos naturais estratégicos da região.
“O Brasil é um país para se armar”, afirmou Paulo Nogueira Batista Júnior. Segundo ele, embora o país tenha graves deficiências sociais em áreas como saúde, educação, moradia e qualidade de vida nas grandes cidades, a realidade internacional impõe ao Estado brasileiro a necessidade de investir de forma permanente em defesa nacional.
“É uma pena porque nós temos deficiências sociais gravíssimas, saúde, educação, moradia, qualidade de vida nas grandes cidades. Seria muito melhor se a gente pudesse usar o dinheiro para isso. Mas vamos ter que usar uma parte do orçamento importante”, disse.
Estados Unidos em decadência, mas ainda perigosos
Na avaliação do economista, os Estados Unidos vivem uma fase de decadência, e não apenas de declínio. Ele afirmou que Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos, expressa esse processo de deterioração política, moral e institucional da maior potência militar do planeta.
“Essa decadência se expressa, entre outras coisas, na escolha de um presidente como Trump. É um presidente aloprado, um presidente de nível baixíssimo, tanto do ponto de vista intelectual quanto do ponto de vista moral e político”, afirmou.
Paulo Nogueira Batista Júnior alertou, no entanto, que a perda relativa de poder dos Estados Unidos não torna o país menos perigoso. Ao contrário: uma superpotência em decadência, partindo de um patamar muito elevado de poder militar, financeiro e tecnológico, ainda conserva enorme capacidade de destruição.
“Mesmo em declínio acentuado, acelerado agora com Trump, ela conserva uma capacidade de fazer um estrago tremendo”, disse.
Ameaça externa real vem dos Estados Unidos
Para Paulo Nogueira Batista Júnior, a principal ameaça externa ao Brasil não está em países vizinhos nem em potências emergentes, mas nos próprios Estados Unidos, especialmente na fase atual de agressividade imperial.
“A única ameaça real que nós temos externa são os Estados Unidos, especialmente os Estados Unidos na fase em que se encontram”, afirmou.
Por isso, ele defendeu uma revisão completa da doutrina militar brasileira, incluindo as escolas de formação das Forças Armadas. O economista criticou o que chamou de “americanização da visão de mundo dos militares brasileiros”, fenômeno que, segundo ele, enfraquece a capacidade do país de pensar sua própria defesa a partir dos interesses nacionais.
“Houve uma americanização da visão de mundo dos militares brasileiros, que é a pior coisa que pode acontecer”, disse.
Defesa nacional não pode depender de equipamento americano
O economista também advertiu que o Brasil não pode depender de equipamentos militares fabricados pelos Estados Unidos, pois eles podem ficar sujeitos a bloqueios, sanções ou mecanismos de controle externo.
“Nós não podemos ter nem a doutrina militar importada dos Estados Unidos, nem os preconceitos que ela carrega e nem podemos depender do equipamento americano que pode ser desligado à distância ao bel prazer do governo americano”, afirmou.
Segundo Paulo Nogueira Batista Júnior, uma política de defesa soberana deve formar militares capazes de compreender o Brasil “a partir da ótica brasileira”, e não de uma visão subordinada a interesses estrangeiros.
“Nós temos escolas militares que formem militares, comandantes capazes de entender o Brasil a partir da ótica brasileira”, disse.
América Latina sob cobiça
Na entrevista, Paulo Nogueira Batista Júnior afirmou que a América Latina vive um “cabo de guerra” entre China e Estados Unidos. De um lado, Pequim oferece cooperação econômica, investimentos, comércio e infraestrutura. De outro, Washington tenta recuperar espaço pela força política, militar e diplomática.
“A tendência na América do Sul é um cabo de guerra entre a China e os Estados Unidos”, afirmou.
Ele destacou que os Estados Unidos estão de olho nos recursos naturais da América Latina, especialmente os do Brasil. Entre os ativos estratégicos citados estão terras raras, minerais críticos, petróleo, minério de ferro e biodiversidade.
“Os americanos estão de olho nos recursos naturais abundantes da América Latina, especialmente do Brasil, entre eles, terras raras, minerais críticos, petróleo, minério de ferro, biodiversidade”, disse.
China não será aliada militar do Brasil
Apesar de reconhecer a importância econômica da China para o Sul Global, Paulo Nogueira Batista Júnior advertiu que o Brasil não deve alimentar ilusões sobre uma eventual proteção militar chinesa na América Latina. Segundo ele, Pequim não disputará militarmente a região com Washington.
“A China é uma potência econômica, mas não tem com nenhum país da nossa região uma aliança militar”, afirmou.
Ele lembrou que os Brics nunca foram uma aliança militar, embora muitas vezes sejam apresentados assim pela imprensa. Para o economista, isso reforça a necessidade de o Brasil construir sua própria capacidade de defesa.
Interesse nacional como estrela-guia
Paulo Nogueira Batista Júnior também rejeitou a ideia de que o Brasil deva substituir os Estados Unidos pela China como “estrela-guia”. Para ele, nenhuma potência estrangeira deve ocupar esse papel.
“A China também não vai ser estrela guia para nós. Ela é muito diferente, tem seus próprios interesses. A estrela guia pro Brasil tem que ser o próprio interesse nacional”, afirmou.
Na visão do economista, a soberania brasileira dependerá da capacidade do país de recuperar um projeto nacional, fortalecer sua indústria, proteger seus recursos estratégicos e construir uma defesa compatível com o tamanho e a importância do Brasil.
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