247 – O Brasil está diante de uma oportunidade estratégica para transformar sua riqueza mineral em base de uma nova etapa de industrialização. Em entrevista à Sputnik Brasil, o diretor de Desenvolvimento Produtivo, Inovação e Comércio Exterior do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), José Luis Gordon, afirmou que o país precisa dominar a cadeia dos minerais críticos para fortalecer sua indústria nacional e deixar de atuar apenas como exportador de matéria-prima.
“O mundo tomou a decisão de que não quer ficar dependente de um único país”, disse Gordon à Sputnik Brasil, ao comentar a disputa global por minerais essenciais à economia contemporânea, como lítio, cobalto, níquel, grafite, cobre e terras raras. Segundo ele, o Brasil possui boa parte desses recursos e pode se tornar um parceiro global relevante, desde que consiga agregar valor à produção em território nacional.
As terras raras e outros minerais críticos tornaram-se peças centrais da economia do século XXI. Eles são indispensáveis para a fabricação de baterias, veículos elétricos, turbinas eólicas, semicondutores, equipamentos de defesa e uma ampla gama de produtos de alta tecnologia. Atualmente, a China concentra cerca de 70% da mineração e 90% do processamento de terras raras, posição que lhe garante enorme influência sobre as cadeias globais de produção.
Brasil quer agregar valor e evitar repetir erros históricos
A estratégia defendida pelo BNDES está alinhada ao discurso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que tem sustentado que o Brasil não pode repetir o modelo histórico de exportar riquezas naturais sem desenvolver sua própria indústria. A proposta é transformar os minerais críticos em vetor de reindustrialização, inovação tecnológica e geração de empregos qualificados.
“A gente não quer simplesmente vender, exportar o mineral. A gente quer também agregar valor na cadeia de minerais críticos”, resumiu Gordon.
Na avaliação do executivo, a conjuntura internacional favorece essa estratégia. Diversos países passaram a buscar fornecedores alternativos de minerais estratégicos, reduzindo a dependência de um único polo produtor.
“Eles tomaram a decisão de diversificar seu portfólio […] e o Brasil é um país que possui boa parte desses minerais”, afirmou.
Política industrial volta ao centro da economia mundial
Gordon destacou que, depois de décadas em que predominou a lógica do livre mercado, organismos internacionais como a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial passaram a reconhecer novamente a importância das políticas industriais para o desenvolvimento econômico.
“O mundo voltou a fazer política industrial de forma explícita. E os minerais críticos ocupam posição central nessa agenda, por seu potencial de agregar valor à produção e fortalecer a base industrial brasileira”, afirmou.
Nesse cenário, o BNDES assumiu papel estratégico como um dos principais instrumentos financeiros da Nova Indústria Brasil (NIB), oferecendo diferentes mecanismos de financiamento para empresas que atuam em toda a cadeia produtiva dos minerais críticos.
Fundo com a Vale e projetos de até R$ 50 bilhões
Uma das iniciativas já em andamento é a parceria entre o BNDES e a mineradora Vale para criação de um Fundo de Investimento em Participações (FIP). O objetivo é captar recursos no mercado e apoiar as chamadas “junior companies”, empresas de mineração em estágio inicial que ainda realizam atividades de prospecção.
Outra frente importante é o edital lançado em conjunto com a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, destinado ao beneficiamento mineral — etapa em que efetivamente ocorre a agregação de valor aos recursos extraídos.
Segundo Gordon, a procura pelo programa demonstra o potencial do setor.
“Qualificamos 56 projetos. Isso dá algo em torno de R$ 45 bilhões a R$ 50 bilhões. Nós estamos, agora, conversando com cada uma dessas empresas, para ver como é que nós podemos apoiá-las ao longo da trajetória de investimentos delas.”
Além desse programa, empresas poderão acessar linhas de crédito como Fundo Clima, Mais Inovação e Brasil Soberano, bem como receber investimentos por meio da BNDESPar.
“Podemos, também, pensar em usar o Fundo de Garantia à Exportação [FGE] para apoio a garantias dessas empresas, porque são normalmente junior companies, precisam de garantias para financiamento.”
Petrobras amplia presença na cadeia dos minerais críticos
Outra parceria considerada estratégica envolve a Petrobras. Uma das possibilidades em estudo é a participação da estatal no fundo criado pelo BNDES e pela Vale para investir em empresas de mineração em fase inicial.
Além disso, Petrobras e BNDES trabalham na construção de uma agenda conjunta de pesquisas por meio do Centro de Pesquisas da Petrobras (Cenpes), localizado na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
“Nós estamos agora na fase de montar o plano de trabalho, as prioridades, entender para onde a Petrobras quer ir e como é que o BNDES pode apoiar”, afirmou Gordon.
O diretor também destacou a importância do edital do Ministério de Minas e Energia para Sistemas de Armazenamento de Energia em Baterias (BESS). Com a expansão da energia solar e eólica, essas baterias serão fundamentais para armazenar eletricidade durante os períodos de maior geração e liberá-la nos horários de maior consumo.
“Isso estimula a produção local e a cadeia de minerais. Ou seja, agregação de valor para atender ao conteúdo de produção de BESS no Brasil.”
Segundo Gordon, a consolidação dessa cadeia produtiva exige planejamento de longo prazo.
“A agenda de minerais críticos, apesar da urgência global, não é uma agenda que você resolve no curtíssimo prazo. Você tem que estruturar isso, montar essa cadeia no Brasil, e nós estamos trabalhando para isso.”
Brasil quer investimentos internacionais com conteúdo local
Embora defenda o fortalecimento da indústria nacional, Gordon ressaltou que o Brasil permanece aberto à cooperação internacional. O critério fundamental, segundo ele, é que os investimentos contribuam para desenvolver tecnologia, inovação e produção dentro do país.
“Existe uma disputa global, e o Brasil está se colocando como um grande parceiro global para a agregação de valor em minerais críticos.”
“O Brasil é um país multilateral”, afirmou. “Que dialoga com quem tiver interesse, desde que tope fazer investimentos de agregação de valor aqui no Brasil. […] Nós não escolhemos um parceiro, nós escolhemos os bons projetos e quem quer trabalhar com o Brasil.”
Expansão da mineração exigirá rigor ambiental
Ao mesmo tempo em que reconhece a importância estratégica dos minerais críticos, o BNDES afirma que não abrirá mão das exigências ambientais para apoiar novos empreendimentos.
Gordon lembrou que a mineração e o processamento desses minerais podem gerar impactos relevantes, exigindo elevados padrões de controle ambiental e monitoramento permanente.
“O setor de minerais críticos e terras raras é um mundo”, observou o diretor, ao destacar que cada mineral possui características próprias e diferentes cadeias produtivas.
Por isso, segundo ele, o banco não pretende estabelecer um único segmento prioritário.
“Todos os bons projetos que tiverem viabilidade econômica e puderem pegar crédito, o BNDES vai procurar apoiar.”
Ao mesmo tempo, reforçou que o rigor socioambiental permanecerá como condição para qualquer financiamento.
“Isso vai ser seguido para todos os projetos de mineração que forem apoiados.”
❗ Se você tem algum posicionamento a acrescentar nesta matéria ou alguma correção a fazer, entre em contato com redacao@brasil247.com.br.
✅ Receba as notícias do Brasil 247 e da TV 247 no Telegram do 247 e no canal do 247 no WhatsApp.
Apoie o jornalismo independente do 247:







Participe da discussão