Nathalia Urban por Milenna Saraiva

Esta seção é dedicada à memória da jornalista Nathalia Urban, internacionalista e pioneira do Sul Global

Nathalia Urban

“Ultimato” de seis meses pressiona governo sul-africano sobre estrangeiros em situação irregular

Líder de movimento popular rejeita acusações de xenofobia

Um migrante zimbabuano carrega bagagem do lado de fora do Consulado do Zimbábue, em meio a temores de violência contra imigrantes, às vésperas do prazo de 30 de junho estabelecido por ativistas que exigem a saída de imigrantes indocumentados do país, na Cidade do Cabo, África do Sul, em 22 de junho de 2026.
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247 – A líder do movimento March and March, Jacinta Ngobese-Zuma, deu ao governo sul-africano um prazo de seis meses para remover estrangeiros em situação irregular, alertando que o grupo realizará protestos todas as quintas-feiras caso não haja ação. O aviso foi feito após milhares de pessoas marcharem em Durban e outras cidades do país na terça-feira, em manifestações centradas em imigração e desemprego. As informações são da NNA TV Plus

O ultimato intensificou o já sensível debate nacional sobre fiscalização migratória, desemprego e ordem pública. As autoridades reconheceram as preocupações dos manifestantes, mas insistiram que os protestos devem ocorrer dentro da lei. O Serviço de Polícia da África do Sul também confirmou prisões relacionadas a saques em várias províncias durante as manifestações.

Ao detalhar as demandas do movimento, Ngobese-Zuma afirmou em Durban que sul-africanos estariam sendo deslocados de setores-chave da economia, como transporte de cargas e serviços de aplicativos.

“Estrangeiros estão substituindo motoristas de caminhão sul-africanos. Estrangeiros assumiram o negócio do Uber. Exigimos que a economia dos nossos bairros volte para os sul-africanos”, disse.

Dirigindo-se ao governo, Ngobese-Zuma defendeu que o Estado redirecione os recursos usados para monitorar os protestos para a fiscalização migratória. Ela então concedeu seis meses para ação, alertando que o movimento fará protestos semanais às quintas-feiras caso o prazo não seja cumprido.

“O governo deveria usar todos os recursos que usou hoje para nos monitorar para remover os estrangeiros ilegais que vendem drogas aqui em Point. Caso o governo falhe em removê-los, faremos uma marcha de protesto toda quinta-feira. Considerando que o governo gastou R680 milhões para monitorar este protesto, isso significa que gastará esse valor toda semana”, acrescentou.

O Estado, porém, rejeitou qualquer sugestão de que a frustração pública justificasse condutas ilegais, emitindo uma breve nota pedindo que os cidadãos apresentem suas preocupações por meios legais.

Ngobese-Zuma rejeitou a resposta, afirmando que as autoridades estão evitando o que descreveu como os problemas centrais da imigração ilegal e da corrupção no sistema de documentação. Segundo ela, a falta de fiscalização alimenta a crescente frustração pública.

“Acho que nosso governo tem um sério problema de comunicação”, disse.

“A única coisa que não entendo é por que o governo da África do Sul não está tratando do problema real, que é a crise de imigração ilegal e estrangeiros que compram documentos e entram no sistema de forma corrupta.”

Continuando as críticas, ela afirmou que a responsabilização deve começar dentro das instituições estatais, acusando autoridades de não combaterem a corrupção enquanto deslocam o foco para os cidadãos.

“Se vocês querem ameaçar alguém, ameacem os imigrantes ilegais que estão no país ilegalmente. Ameaçem seus próprios funcionários que estão vendendo documentos. Ameaçem os funcionários do governo que não estão fazendo o seu trabalho”, continuou.

Respondendo às críticas à campanha, Ngobese-Zuma rejeitou acusações de xenofobia, afirmando que o foco é a imigração ilegal, e não a nacionalidade.

“Não nos falem de xenofobia, afrofobia ou mobilização étnica. Falem sobre a crise da imigração ilegal no país e como vocês vão resolvê-la. É isso que queremos ouvir”, acrescentou.

Ngobese-Zuma pediu que seus apoiadores mantivessem disciplina, apesar das críticas ao governo, enfatizando que a campanha busca pressão política e não destruição.

“Hoje não é sobre nós; é sobre o futuro da África do Sul. Ao irmos às ruas, lembremos que este momento não é uma oportunidade para destruir nosso país, mas para apertar o botão de reinício, reconstruir e permitir que os sul-africanos sejam priorizados em seus próprios países sem se sentirem culpados ou com medo de serem rotulados como odiosos. Hoje não é sobre migrantes, mas sobre o povo da África do Sul. Este momento não é o fim, mas apenas o começo.”

Ela também afirmou que o Estado falhou com as crianças sul-africanas, usando isso como evidência de um sistema quebrado.

“Jamais esquecerei ver nossas crianças passarem os dias na praia apenas para passar o tempo enquanto outras crianças recebiam educação. É um sinal claro de que o sistema está quebrado; ele não se importa com a criança sul-africana. A compaixão que vemos agora não foi estendida às crianças da África do Sul quando elas precisavam. É muito triste”, disse.

Enquanto os organizadores pediam disciplina, o grupo de monitoramento Siyafana Sonke relatou aumento da volatilidade em Joanesburgo no período da tarde, afirmando que manifestantes se espalharam por várias áreas e sobrecarregaram a capacidade policial. O grupo registrou saques, ataques a comércios de estrangeiros, intimidação, danos a propriedades e incidentes de tiroteio isolados, além de atrasos na resposta policial em algumas regiões.

Em Gauteng, houve registros de tiroteios e incêndios em Hillbrow, envio do Exército a Kliptown, arremesso de pedras em Berea, danos a lojas em Yeoville, um ferido perto do Alexandra Mall e prisões feitas por civis em Germiston, além de saques em Cosmo City.

Incidentes semelhantes foram relatados em outras regiões. Em KwaZulu-Natal, protestos ocorreram em Briardene e Pietermaritzburg. Manifestações também foram registradas em Mangaung, no Estado Livre, enquanto a polícia efetuou prisões de estrangeiros em partes da Cidade do Cabo.

Diante dos relatos de distúrbios, o Ministério da Polícia afirmou que a maioria das manifestações permaneceu pacífica, mas confirmou prisões relacionadas a casos isolados de saques. O ministro interino da Polícia, Firoz Cachalia, pediu moderação, afirmando que a polícia atuará contra condutas criminosas e manterá a ordem pública.

Antes de encerrar seu discurso, Ngobese-Zuma agradeceu o apoio de algumas figuras políticas, destacando nomes dentro do ANC, incluindo o premiê de Gauteng, Panyaza Lesufi.

“Quando se trata do ANC, só reconheceremos o apoio de certos indivíduos que estiveram conosco”, disse.

O prazo de seis meses agora define o cronograma da próxima fase do movimento, com protestos semanais às quintas-feiras caso o governo não aja. As autoridades afirmaram que continuarão equilibrando o direito constitucional ao protesto com a necessidade de manter a ordem pública, enquanto as tensões sobre imigração e desemprego permanecem elevadas.

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