247 – O professor de Ciência Política Reginaldo Nasser afirmou que Estados Unidos e Israel atuam de forma coordenada na condução da crise envolvendo o Irã, alternando discursos diplomáticos e ações militares para impedir uma solução definitiva para o conflito. A avaliação foi feita em entrevista ao Boa Noite 247.
Segundo Nasser, a interpretação de que Israel age à revelia de Washington não corresponde ao funcionamento da política externa norte-americana. Para ele, a aparente divergência entre o presidente Donald Trump e o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu faz parte de uma estratégia conjunta. “A minha hipótese é que é bad cop, good cop. Não adianta. O Trump usa Israel. Ele fala que é o Netanyahu, mas faz uso disso porque ele não quer acordo nenhum”, afirmou.
Na avaliação do pesquisador, a ideia de que Israel estaria sabotando negociações contra a vontade dos Estados Unidos ignora o alinhamento histórico entre os dois governos. Para Nasser, Washington utiliza as ofensivas israelenses para manter pressão permanente sobre o Irã enquanto preserva espaço para apresentar uma imagem de disposição ao diálogo.
O professor lembrou que, mesmo quando surgiram sinais de um possível entendimento diplomático, Israel realizou novos ataques no Líbano e, em seguida, contra o Irã. Para ele, esses episódios demonstram que as ações militares não representam desvios da estratégia norte-americana, mas instrumentos complementares da política conduzida por Washington.
Nasser também afirmou que os Estados Unidos não aceitaram o desempenho do Irã durante o conflito recente e continuam buscando formas de reverter o cenário. Segundo ele, a suspensão temporária das hostilidades não significa mudança de objetivos estratégicos.
“Os Estados Unidos foram pegos de surpresa pelo Irã e não engoliram isso. O Trump vai oscilando, ganhando tempo, enquanto os planejadores do Pentágono trabalham para reverter essa situação”, disse.
Na análise do cientista político, a tentativa de mudança de regime em Teerã permanece presente na política externa norte-americana. Por isso, ele considera improvável que um cessar-fogo se transforme em estabilidade duradoura.
“Eu acho que eles vão voltar sempre até tentar derrubar o governo do Irã. Isso não saiu do radar dos Estados Unidos”, afirmou.
Outro aspecto destacado por Nasser é a dificuldade de confiar em acordos firmados por Washington. Para ele, o principal problema não está apenas na assinatura de um entendimento, mas na sua implementação e fiscalização, sobretudo quando envolve uma potência militar e um aliado estratégico como Israel.
O professor recordou experiências anteriores em conflitos internacionais para sustentar que mecanismos de supervisão frequentemente acabam sendo insuficientes diante dos interesses das grandes potências. Nesse contexto, considera precipitado interpretar qualquer anúncio de negociação como sinal de encerramento definitivo da crise.
Além da dimensão geopolítica, Nasser apontou interesses econômicos que contribuem para a continuidade das guerras. Segundo ele, setores ligados à indústria de defesa e ao mercado de energia obtêm ganhos diretos com a manutenção dos conflitos.
“O complexo industrial-militar hoje é articulado com outro complexo, que é o de Israel. Tem gente ganhando muito dinheiro com isso e não quer que isso pare”, afirmou.
Para o pesquisador, essa combinação entre interesses estratégicos, militares e econômicos ajuda a explicar por que Washington mantém uma política de pressão contínua sobre o Irã, mesmo quando adota um discurso público favorável à negociação.
Na conclusão de sua análise, Nasser reiterou que a relação entre Estados Unidos e Israel deve ser compreendida como uma ação coordenada, e não como uma disputa entre governos com objetivos diferentes. Segundo ele, a alternância entre diplomacia e ofensivas militares constitui parte de uma mesma estratégia voltada à manutenção da pressão sobre Teerã e à preservação dos interesses norte-americanos na região.
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