Em 1941, enquanto a Segunda Guerra Mundial redesenhava a geopolítica do planeta, Getúlio Vargas tomou uma decisão que mudaria o destino econômico do Brasil. Enviou Oswaldo Aranha a Washington para negociar o financiamento da Companhia Siderúrgica Nacional. Havia quem considerasse um delírio imaginar que um país exportador de café precisasse produzir aço. O tempo mostrou que aquele aparente delírio era, na verdade, uma visão estratégica.
A CSN não foi apenas uma siderúrgica. Representou uma escolha de Estado. Getúlio e Aranha compreendiam que nenhuma nação alcançaria desenvolvimento industrial sem dominar um insumo básico para a economia. O aço era, naquele momento, o equivalente ao que hoje representam os semicondutores, os data centers, a inteligência artificial e a infraestrutura digital. O mundo do século 21 gira em torno da informação, da capacidade de processá-la e de transformá-la em inovação.
O século passado foi moldado por quem dominou o aço e a indústria pesada. O século 21 será moldado pela infraestrutura da economia do conhecimento. Estamos vivendo uma nova Revolução Industrial. E, como em todas as anteriores, ela redefinirá a hierarquia das nações. A diferença é que ela será medida em décadas, e não em séculos. A internet deixou de ser a grande novidade. Agora, IA, energia, minerais críticos e conhecimento formam a infraestrutura da nova economia.
O Relatório Econômico Anual de 2026 do Banco de Compensações Internacionais (BIS), instituição que reúne os bancos centrais das principais economias do planeta, é talvez o documento mais importante publicado neste ano sobre essa transformação. O documento conclui que a economia mundial demonstrou surpreendente resiliência diante das guerras comerciais, do avanço da inteligência artificial e dos choques geopolíticos. Mas alerta que essa resiliência está sendo colocada à prova por quatro riscos estruturais: inflação persistente, incertezas sobre os investimentos em IA, fragilidades financeiras e deterioração fiscal. A leitura mais importante está nas entrelinhas.
O mundo deixou de competir apenas por mercados. Passou a disputar o controle das cadeias produtivas que sustentam as tecnologias críticas. O petróleo continua estratégico. Mas já não é suficiente. A nova economia depende simultaneamente de energia abundante, minerais críticos, semicondutores, data centers, redes elétricas resilientes, computação de alta performance, fertilizantes, terras raras, hélio, cabos submarinos e IA.
O BIS mostra que a simples interrupção do fluxo pelo Estreito de Ormuz foi suficiente para ameaçar não apenas o abastecimento de petróleo, mas também fertilizantes, gases industriais, petroquímica e insumos indispensáveis à fabricação de chips. O gargalo deixou de ser apenas energético e passou a ser tecnológico. Essa talvez seja a principal mudança do capitalismo contemporâneo e a lição da geopolítica aplicada aos dias de hoje.
Durante décadas, a globalização significava produzir onde fosse mais barato. Agora, produzir perto, produzir com segurança e controlar tecnologias tornou-se tão importante quanto produzir com menor custo. Os Estados Unidos aprenderam com os próprios erros e mudaram a chave.
Depois de décadas defendendo a abertura irrestrita dos mercados, Washington voltou a fazer política industrial. O CHIPS Act, os investimentos em infraestrutura tecnológica e a corrida pelos minerais críticos mostram que soberania tecnológica voltou a ser questão de Estado. Não por acaso, capital americano já financia projetos ligados à exploração de minerais críticos em Goiás.
Do outro lado do mundo, Pequim percorre esse caminho há muito mais tempo. Seus planos quinquenais transformaram IA, semicondutores, energia, manufatura avançada e inovação em prioridades nacionais. O recente avanço do setor manufatureiro de alta tecnologia, o fortalecimento de empresas como a DeepSeek e a fabricante de chips CXMT, e a aceleração dos investimentos em IA são consequência dessa estratégia de longo prazo. O foco foi definido. A estratégia foi mantida.
A União Europeia também corre contra o relógio para reduzir dependências estratégicas. Chips, baterias, hidrogênio, defesa e minerais críticos passaram a integrar o centro da política industrial europeia. Recentemente, Bruxelas ofereceu ao Brasil uma parceria considerada mais vantajosa do que as propostas dos Estados Unidos ou da China, incluindo investimentos em refino doméstico e transferência de tecnologia para minerais críticos.
Todos compreenderam que a segurança econômica se tornou uma extensão da segurança nacional.
E o Brasil?
Paradoxalmente, talvez nenhum país reúna tantas vantagens naturais para liderar essa nova etapa. Temos uma das matrizes elétricas mais limpas do mundo, enorme potencial de expansão da geração renovável, reservas estratégicas de lítio, grafite, nióbio e minerais críticos, capacidade agrícola incomparável, abundância hídrica e um mercado interno expressivo. Poucas economias têm simultaneamente energia limpa, recursos minerais estratégicos, água, produção agropecuária, universidades de excelência e escala de mercado.
Mas há um problema. Continuamos exportando recursos e importando tecnologia. Corremos o risco de repetir, na economia digital, o velho modelo colonial: vender energia barata, minerais e commodities para que outros produzam chips, IA, softwares, equipamentos e propriedade intelectual. O Brasil precisa deixar de ser uma potência de recursos para se tornar uma potência de capacidades. Não basta possuir os ativos estratégicos da nova economia. É preciso dominá-los tecnologicamente.
É exatamente por isso que precisamos pensar em uma CSN Digital. Não como uma empresa estatal. Mas como estratégia nacional capaz de mobilizar Estado, universidades, centros de pesquisa, sistema financeiro e setor privado para construir a infraestrutura da economia do conhecimento.
Isso significa investir em data centers de escala mundial alimentados por energia limpa, ampliar a capacidade nacional em semicondutores, computação avançada e IA. Mas também desenvolver cadeias industriais para minerais críticos, fortalecer empresas de base tecnológica, formar talentos e criar instrumentos permanentes de financiamento de longo prazo para inovação. Assim como a siderurgia estruturou a indústria do século 20, é essa infraestrutura que vai sustentar e moldar os rumos da economia do século 21.
Nenhum desses investimentos é apenas tecnológico. Todos são investimentos em soberania nacional. O debate já chegou ao governo brasileiro. Ao comentar as reservas nacionais de terras raras, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que o Brasil pretende agregar valor aos minerais em território nacional, e não apenas exportar matéria-prima. A direção estratégica parece correta. O desafio agora é transformá-la em uma política de Estado permanente, capaz de sobreviver aos ciclos eleitorais e mobilizar investimentos públicos e privados ao longo de décadas.
O relatório do BIS demonstra que a IA é um dos principais motores da economia mundial recente, impulsionando investimentos em semicondutores, infraestrutura elétrica e centros de processamento de dados. Mas o BIS também alerta que esse ciclo dependerá da capacidade dos países de proteger suas cadeias produtivas e reduzir vulnerabilidades estratégicas.
O Brasil ainda tem tempo. Talvez mais do que muitos imaginem. Mas não muito. A decisão tomada por Vargas em 1941 moldou a industrialização brasileira durante décadas. A decisão que precisamos tomar agora definirá se o Brasil será protagonista ou apenas fornecedor de insumos na economia da IA.
A pergunta que o país deveria estar fazendo não é se devemos construir uma “CSN Digital”. A verdadeira pergunta é quem fará isso primeiro — e se teremos coragem de participar da revolução tecnológica do século 21 com a mesma ambição estratégica que tivemos ao construir Volta Redonda.
No século passado, o aço definiu quais países se industrializaram. Neste século, IA, energia e infraestrutura digital definirão quais países permanecerão soberanos. A geração de Vargas construiu a infraestrutura da economia do aço. A nossa terá de decidir se quer construir a infraestrutura da economia do conhecimento. Não se trata apenas de desenvolvimento. Trata-se da capacidade do Brasil de decidir o próprio futuro.
❗ Se você tem algum posicionamento a acrescentar nesta matéria ou alguma correção a fazer, entre em contato com redacao@brasil247.com.br.
✅ Receba as notícias do Brasil 247 e da TV 247 no Telegram do 247 e no canal do 247 no WhatsApp.
Apoie o jornalismo independente do 247:







Participe da discussão