Eu podia dar um mergulho em Ipanema. Podia xeretar na livraria Folha Seca. Podia ir ao Samba do Trabalhador. Podia, mas não fiz nada disso. Naquela tarde de sol brando no Rio de Janeiro preferi andar de ônibus.
Não é um ônibus qualquer, ele me transportará ao ano de 1973. Com 11 para 12 anos, comecei minha aventura de andar sozinho pela cidade.
Um garoto livre, mas cercado por conselhos: “Não fale com desconhecidos”, “Espere o ônibus parar para descer e subir”, “Se estiver sentado e uma pessoa mais velha entrar, se levante”. Minha mãe, a Therezinha, ainda foi à escola comigo e depois voltou na hora da saída, para que eu não tivesse dúvida: “Você desce no quinto ponto da avenida 28 de setembro, na esquina da Pharmácia Kosmos”.
– Mãe, por que tem duas fichas, uma azul e uma vermelha?
– A vermelha é de meia passagem. É mais barata, serve para quem viaja até o centro da cidade. Quem estica até a zona sul paga inteira e recebe a ficha azul.
– Por que a gente fica com a ficha?
– Porque se o fiscal entrar no ônibus, você mostra que pagou. Antes de descer, você bota a ficha lá naquela caixinha, perto da porta de saída. É assim que eles sabem quantos passageiros viajaram.
O 433, partia da praça Barão de Drummond, em Vila Isabel, e ia até o Leblon, na zona sul. Eu viajava pelo trecho Vila Isabel – Rio Comprido. Ida e volta, de casa à escola, do edifício Silvana ao instituto La-Fayette.
O ônibus não tinha catraca, tinha borboleta. Os passageiros entravam pela porta traseira e pagavam ao cobrador, também chamado de trocador. Ele dava o troco, ajudava o motorista e orientava os passageiros. “Pessoal, a próxima parada é no Largo da Segunda-Feira!”.
Talvez tenha sido a minha primeira prova de maturidade. Misturava um pouco do medo de me perder descendo em um ponto errado, com o orgulho de mostrar aos colegas que já sabia ir e vir.
Quando meus pais perguntavam: “Como foi a viagem?”. Eu ainda não sabia o significado de “autoestima”, mas, naqueles momentos, ela variava de ótimo a excelente.
Muitas vezes pegava o ônibus com o Eduardo. Ele, Flamenguista, eu, Botafoguense. Ele elogiava Zico e Adílio, eu endeusava Nilson Dias e Marinho.
O papo de arquibancada ajudava a passar o tempo, porém, eu seria muito mais feliz conversando com a Teresa. A morena esguia costumava sentar perto da janela com os joelhos de fora.
Teresa era dois anos mais velha, entendia de fotossíntese, teorema de Pitágoras e verbos no subjuntivo. Teresa sabia tanto que eu me sentia um palerma.
“Fala qualquer coisa”, meu irmão me incentivou. Passei quase um ano me perguntando o que era “qualquer coisa”.
“Dá um sorriso pra ela e se apresenta”, meu mano insistiu. Só um adolescente sabe como tudo isso é sofrido e difícil.
Até que em um dia qualquer, Teresa sentou ao meu lado e contou que tinha ganho o disco de Os Mutantes. Eu, com as bochechas vermelhas, permaneci mudo.
Ficamos amigos e, também no sacolejo do 433, ela me revelou um segredo: gostava de homens que prestavam atenção ao que as mulheres diziam. Eu fiquei sério e segurei o queixo.
Teresa, olhos castanhos, 66 anos. Por onde andará a Teresa?
Aos 16 anos, em 1977, já me sentia mais seguro. Perto do fim da linha, sentava na tampa do motor, que ficava ao lado do motorista. Era com ele, o Ezequiel, que eu soltava a língua tanto tempo travada.
– Por que quando você muda de marcha pisa naquele pedal?
– Como você sabe que os passageiros já desceram lá pela porta de trás?
– Quantas horas você trabalha por dia?
– Quantos filhos você tem?
Eu fingia que não via a placa enorme: FALE AO MOTORISTA SOMENTE O INDISPENSÁVEL. Mas Ezequiel não perdeu a chance: “Senta aí, Indispensável”. Os poucos passageiros riram e eu me senti elogiado, mesmo sem saber direito o que era indispensável.
Aos 20, 22 anos, ainda era o 433 que me levava para casa depois das noitadas no Baixo Leblon. O ônibus mudara de cor: ao invés insosso azul e branco, um abóbora escandaloso. Logo, meu amigo Alvinho criou o nome de guerra: “Lá vem o Laranjão da Madrugada”.
De meia em meia hora, levava para casa boêmios e trabalhadores da noite, como garçons, cozinheiros, músicos; e gente que começava o dia: enfermeiras, padeiros, porteiros. Um radinho de pilha transmitia o programa O Amigo da Madrugada, de Adelzon Alves.
O túnel do tempo chega ao fim. Estamos de volta ao inverno de 2026.
Um telejornal informa com gélida objetividade que o 433 acabou. Agora é LECD – 150 (quem guarda um nome desse?). A boa notícia é que ainda passa por Vila Isabel.
Foi lá que tudo começou. É pra lá que eu vou.
Pago com pix e sento na janela.
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