Lula acordou na sexta feira passada como perseguido e dormiu como candidato a presidente. Ele fez com que aquela sexta, que havia sido anunciada como um dia de sonhos para a direita brasileira, contribuísse decisivamente para mudar a agenda politica brasileira.
Porque por detrás das escaramuças cotidianas, o combate maior a disputa por qual é a prioridade nacional, qual a agenda fundamental do pais. A direita conseguiu, pela aliança entre setores do Judiciário, da PF e da mídia, promover o tema da corrupção como o central. Segundo suas próprias pesquisas, esse seria o tema que mais preocuparia os brasileiros.
A saraivada intermitente de acusações, mesmo sem fundamento, promove essa prioridade, que tem como objetivo desviar temas como a especulação financeira e as questões sociais, para concentra-la num tema que so aponta para criminalizar o PT e Lula.
A ofensiva constante colocou Lula, o PT e o governo na defensiva. Gastam parte do tempo e das energias com os desmentidos, que nem sequer são levados em conta pelos órgãos que os publicaram, que seguem se comportando como se fossem verdades. Foi o que aconteceu com a suposta delação premiada da quinta, reiterada na sexta.
Nas suas brilhantes intervenções da sexta, Lula encontrou o caminho de dará uma reviravolta na situação de defensiva, que apenas reitera o denuncismo da mídia. Alem de responder do absurdo da forma e das questões do seu depoimento, passou ao ataque. Reafirmou em alto e bom som o que tinha dito no aniversario do PT, no Rio, no sábado 27 de fevereiro: é candidato. E mais do que isso: vai sair pelo Brasil afora a discutir seus projetos para o pais.
Deixou assim a situação de defensiva, de lutador espremido no corner do ringue, se esquivando o tempo todo, para retomar a iniciativa. Falou do pais que seus governos construíram, reiterou que por isso o perseguem, interpelou a oposição sobre o que eles querem para o pais.
Em poucas horas Lula deslocou o eixo do debate, projetando sua candidatura e se propondo a sair pelo pais a discutir politica, o significado da perseguição que ele sofre, as realizações que seu governo promoveu, o quanto isso incomoda a direita e as saídas da crise para poder retomar o modelo de desenvolvimento com distribuição de renda que seu governo notabilizou.
Lula se convenceu de que a única maneira de reverter a situação atual e’ fazer campanha o tempo todo, é politizar o debate. Valendo-se da precipitação do Lava Jato, a reação se deu em todos os planos, e permitiu deixar a direita na defensiva.
Lula deu o tom politico da reação. Os movimentos populares se mobilizaram e saíram imediatamente para as ruas. Os assessores do Lula interpelam em distintos planos os promotores. A mídia alternativa fez circular as versões reais dos acontecimentos e o seu significado.
A direita se jogou com tudo e corre o risco de perder tudo. Acreditou que tinha nas mãos a montagem da prisão do Lula e de seu linchamento pela mídia no fim de semana. Lula saiu engrandecido moral e politicamente, seus adversários, em situações embaraçosas.
A crise está longe de terminar. A Lava Jato vai buscar formas de dar continuidade às interpelações, mas com o desgaste da operação frustrada. O governo tem uma nova oportunidade, diante das mobilizações populares, de se reencontrar com elas, mudando a politica economica.
Mas o principal é que o Lula cansou de ser perseguido e, ao longo da sexta-feira, se assumiu definitivamente como candidato à Presidência da Brasil.
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