Opinião

É tempo de resistência e de luta, não de revanche

Eles venceram, mas o sinal não está fechado, é tempo de autocrítica, de curar as feridas e reorganizar o exercito para as novas batalhas nessa nossa guerra que parece não ter fim

Brasília - O presidente interino Michel Temer durante cerimônia de posse aos ministros de seu governo, no Palácio do Planalto (Marcello Casal Jr/Agência Brasil)
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Sim, o que ocorreu foi um Golpe de Estado e ele atenderá aos interesses tão próprios da lógica liberal, tudo para felicidade da Fiesp, da Febraban, das aristocracias urbanas – as quais se apropriaram do Poder Judiciário e do Ministério Público – e dos barões da mídia e suas relações impublicáveis com interesses transnacionais e nada republicanos.

Mas o Golpe de Estado só ocorreu porque a esquerda acomodou-se num governo reformista, progressista é verdade, mas fundamentalmente reformista; um governo que fez muitas coisas boas, algumas excepcionais, mas insuficientes.

Insuficiente porque não fez as reformas que deveria e poderia ter feito; não enfrentou temas fundamentais como a regulação da mídia, por exemplo. Um governo que apostou que poderia manter os senhores do mercado pacificados.

Eles venceram, mas o sinal não está fechado, é tempo de autocrítica, de curar as feridas e reorganizar o exercito para as novas batalhas nessa nossa guerra que parece não ter fim.

Fato é que desde o início deste século um conjunto importante de mudanças aconteceram e a América do Sul protagonizou tudo isso, tendo o Brasil como liderança mundial incontestável e fundamental, mudanças que agora estão sob forte  ameaça conservadora (Lejeune Mirhan, um dos intelectuais mais vigorosos que conheço, afirma que “o golpe cumpre o objetivo imperialista de retirar o ‘B’ do BRICS”).

Contudo, governos e movimentos progressistas passaram a sofrer ataques de setores conservadores com o objetivo de desmoralizá-los e criminalizá-los, o que não ocorre apenas no Brasil, mas é aqui que vivemos.

Boaventura Santos, o intelectual europeu mais próximo de nós, fez criticas que não foram ouvidas enquanto o processo sul-americano avançava.

O sociólogo português chamou atenção para o fato de as mudanças estruturais estarem sendo deixadas de lado.

No Brasil, muito especialmente, a opção foi valer-se do “boom” das commodities e usar parte dos ganhos para alguma redistribuição de riquezas, foi política pública muito relevante, inédita, mas insuficiente e desacompanhada de formação política necessária, como diz meu amigo Kalil Bittar. O debate político era tarefa dos partidos de esquerda, mas seus principais quadros estavam embriagados do institucionalismo governista.

Em contrapartida à inédita redistribuição de riquezas realizada com parte dos ganhos do “boom” das commodities o governo reformista permitiu que as oligarquias mantivessem riqueza e acumulassem mais poder ainda. Mas ai surge o pré-sal, que apenas nas bacias marítimas sedimentares de Campos e Santos, contém ao menos 176 bilhões de barris de recursos não descobertos e recuperáveis de petróleo e gás natural (barris de óleo equivalente), de acordo com um estudo publicado  por Cleveland Jones e Hernane Chaves, do Instituto Nacional de Óleo e Gás da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), há ainda quem estime o valor total dessa riqueza em 17 trilhões de dólares, ou seja, o interesse do mercado internacional pelo ganho decorrente da exploração dessa riqueza nacional passou a ser inconciliável com o governo brasileiro, que mesmo reformista se opôs em ceder aos interesses do mercado internacional.

Mas faltaram reformas estruturais. E não nos basta agora bravatas revolucionárias, para a retomada de uma caminhada progressista não agrupar partidos de esquerda numa sala e definir ações ousadas… A esquerda não tem apoio para isso, prova disso é a irrelevância eleitoral dos partidos comunistas e socialistas no país, razão pela qual é fundamental cuidarmos do PT, pois sem um partido como PT a esquerda não existe validamente. Essa é a verdade.

Há lutas fundamentais em curso que merecem a nossa atenção. Há a questão LGBTTT, a questão indígena, a questão dos negros, a questão das mulheres, há a questão da juventude urbana das periferias e a cultura que lá é produzida, há o renascido movimento estudantil, há a questão cultural propriamente dita, a questão agrária não pode ser esquecida, o debate sobre a reforma urbana e a indesejada apropriação de espaços públicos por interesses privados, a nova família, etc., etc. etc.

Essas e outras são questões fundamentais que apenas a esquerda é capaz de compreender seu valor transformador e a semente revolucionaria nelas contidas. Conhecer e compreender essas questões, debatê-las é fundamental para não legarmos aos nossos filhos e filhas o sentimento de resignação de que a boa vida deve refletir valores de uma sociedade burguesa, branca, que busca adequar-se a um emprego sem sentido, uma família, uma casa numa periferia pensada como adequada por quem não vive lá, pois a transformação da realidade e o caminho do progresso emana das ruas, da sociedade e não de algum gabinete luxuoso na Avenida Paulista ou na Esplanada dos Ministérios.

É tempo de resistência, de autocrítica e de luta, não de revanche.

 

Pedro Benedito Maciel Neto, 52, advogado, sócio da MACIEL NETO ADVOCACIA, autor de “Reflexões sobre o estudo do Direito, Ed. Komedi, 2007.

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