Em 1995 eu estava fazendo uma enquete para a revista Interview cujo tema era Antônio Carlos Magalhães, também conhecido como ACM ou “Toninho Malvadeza”, apelido que Golbery lhe pespegara. Uma figura altamente polêmica desde 1961, quando protagonizou um dos episódios mais tensos e mais ridículos da história da Câmara dos Deputados. Indignado com acusações de desvio de verbas que seu colega Tenório Cavalcanti (“o homem da capa preta”) fizera ao presidente do Banco do Brasil, Clemente Mariani, ACM retrucou, em aparte:
“Vossa Excelência pode dizer isso e mais coisas, mas na verdade o que Vossa Excelência é mesmo, é um protetor do jogo e do lenocínio, porque é um ladrão.”
Tenório Cavalcante, então, sacou o revólver e berrou: “Vai morrer agora mesmo!”.
Estabeleceu-se a balbúrdia. Alguns deputados tentaram conter Tenório, outros fugiram, apavorados. Tremendo de medo, ACM desafiou o agressor, gritando: “Atira”!
Apesar da suposta valentia da boca para fora, uma poça de urina se formara no chão. ACM tinha se mijado todo. Tenório soltou uma gargalhada, recolheu a arma e humilhou:
“Só atiro em homem”.
As enquetes da Interview consistiam em uma pergunta a ser respondida por ao menos 60 personalidades da política ou da cultura e reproduzidas na íntegra. Algumas pessoas respondiam por telefone; outras, pessoalmente.
Numa segunda-feira à noite topei com a deputada Marta Suplicy numa vernissage da Galeria São Paulo. Ela concordou em responder à enquete sobre ACM ali mesmo, na calçada da Rua Estados Unidos, fronteiriça à galeria, lotadíssima.
Em meio à resposta, repentinamente ela perguntou: “Essa enquete é para qual revista”?
“Interview” respondi. O que, aliás, já tinha informado antes de começar a gravar, como era de praxe.
Ela ficou furiosa. “Você me enganou! Você mentiu! Você disse que era para a revista da escola do seu filho”!
Eu estava, de fato, em companhia do meu filho, que estudava no Colégio Palmares e o apresentara a ela, mas jamais tinha dito o que ela alegou.
“Me dá esse gravador”! continuou Marta, transtornada. “Não quero que esse depoimento seja publicado”!
Imediatamente guardei o gravador no bolso direito da calça e mantive a mão enfiada nele, enquanto ela tentava enfiar a sua no meu bolso para destruir a gravação, sempre aos berros: “Me dá isso aqui”!
Entre um grito e outro, sem tirar a mão do bolso, e segurando o gravador eu procurei tranquilizá-la, garantindo que, se ela não autorizava a publicação eu não publicaria. Até que ela desistiu de me agredir e se afastou.
Uma cena muito semelhante havia acontecido em 1986, em Salvador, com o personagem da minha enquete.
Recebido com vaias na sessão eleitoral onde votaria no futuro governador da Bahia, ACM, então ministro das Comunicações do governo Sarney foi questionado por um repórter da TV Itapoã a respeito do fato. Ele apertou com força a mão do repórter que segurava o microfone e passou a insultá-lo:
“Seu mal-educado… seu filho da puta”…
E ainda deu um pisão no seu pé quando ele se afastava.
Naquela vernissage Marta mostrou, pela primeira vez, que entre ela e ACM não havia tantas diferenças assim, apesar de ela ser filiada a um partido de esquerda e ele, de direita. E que não seria exagero apelidá-la, depois de tudo o que aconteceu entre 1995 e 2016 com o mesmo epíteto que o general Golbery havia criado para ACM: Marta Malvadeza.
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