Fernando Henrique Cardoso tem toda razão ao repetir, em artigo de hoje na Folha, o apelo para que Michel Temer renuncie a cargo.
O problema é que FHC é o primeiro a saber que isso não vai acontecer.
Apresentando a renuncia como a única saída possível, Fernando Henrique assume a postura de quem deixa o destino da democracia nas mãos de Temer — e só dele.
Faz mais. Diz que “qualquer tentativa” para se interromper o mandato previsto para encerrar-se em janeiro de 2019 “soará como golpe.” Ou seja: não vale nem a batalha legal e legítima de aprovar uma emenda no Congresso, iniciativa em curso há muito tempo, inclusive por aliados de longa data do PSDB, para realizar eleições diretas para presidente.
Em novo passo atrás na biografia, FHC abandona o princípio democrático pelo qual os governantes devem ser escolhidos pelo voto popular. Chega a escrever: “não há como fazer eleições diretas respeitando a Constituição Federal; forçá-las teria enorme custo para a democracia.”
Caberia perguntar o custo que o país teria de pagar por uma solução pelo alto.
Não é fácil de adivinhar: implica em levar adiante um programa impopular de reformas, que a população rejeita sempre que é perguntada — e seria colocado abaixo numa campanha aberta para o debate de projetos para o país.
FHC argumenta pela renúncia porque está preocupado com a preservação das forças políticas onde costuma se situar — aquelas que gostam de se definir como “de centro.”
Lembrando o custo eleitoral e político das reformas de Temer-Meirelles que o PSDB e o PMDB carregam no Congresso, revela receio pela desaparição do “centro político”, que correria o risco de ser esmagado num ambiente “entre dois extremos, à esquerda e à direita.” Fica a ideia, assim, de que fazer eleições mais cedo seria útil para preservar os possíveis Macrons brasileiros.
O problema real é prático. Renúncia é muito boa para quem pede e não para quem faz.
Nenhum presidente renuncia ao cargo pelo desejo levar o país por “um caminho mais venturoso”, como sugere FHC a Temer.
Muito menos quando a saída do Palácio pode implicar em problemas com a Justiça.
Em casos desse tipo, a porta dos fundos se abre em troca de um acordo político.
Cercado pelo país inteiro, Richard Nixon assinou a renúncia, em 1974, em troca de um indulto negociado com o sucessor Gerald Ford. O acordo não só encerrou todas as investigações que Nixon já enfrentava como ainda proibiu que se apurassem fatos novos que surgissem no futuro.
Descartando um pacto dessa natureza no Brasil de 2017, resta a luta popular, termômetro da vontade do povo. Trata-se da escolha necessária, que envolve a mobilização de interesses majoritários, que tem muito a exibir num país que enfrenta um desemprego de 14 milhões na pior recessão da história.
Essa é a força que faz a democracia de todo o país e seus movimentos sempre inquietaram aqueles que tem algo a perder quando começa a se mover.
O resto é discurso.
(artigo reescrito em 27/6/2017)
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