Como se tivesse sido vacinado contra as permanentes moléstias infecciosas do governo Michel Temer, o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, atravessou incólume os ventos e as tempestades que afligiram o país desde que a coalização golpista tomou posse no Planalto. Chegou a se lançar candidato a presidente da República, a viajar pelos quintais eleitorais de igrejas pentecostais.
Quando disseram que podia ser vice de Luciano Huck, respondeu ofendido — mas sem perder o sorrio — que seu lugar era de candidato titular. O sonho acabou.
Nenhum país pode ter um ministro da Fazenda com empresa em paraísos fiscais, um trust, como Eduardo Cunha — e achar que a vida é assim mesmo e vamos em frente porque estamos num mundo globalizado, não é mesmo? Ainda mais porque a história não começa aqui.
Nos quatro anos anteriores à sua chegada ao governo, Meirelles levou R$ 200 milhões o bolso, na condição de principal executivo do grupo J & F, a casa mãe de Joesley e Wesley Batista e seus gigantescos esquemas de corrupção dentro da corrupção. Conclusão: ou não sabia de nada, e aí era bobo demais para o cargo; ou sabia de tudo e ficou quieto, o que indica esperteza em demasia.
Em qualquer caso, a função ali era de testa-de-ferro. A dúvida é se era um acaso, numa repetição do filme de Woody Allen. Ou não.
Num governo que sobrevive fechado no próprio bunker, contabilizando votos e recursos espúrios, Meirelles era o elo de ligação com aquela força que impede o apagar das luzes — o mercado financeiro internacional, patrão e beneficiário da destruição de um respeitável aparato de desenvolvimento que fez do Brasil uma das maiores economias do mundo e permitiu a formação do embrião de um estado de bem-estar social.
Temer é o governo formal, o jogador das aparências, única opção possível para um golpe parlamentar cuja linha essencial consiste em destruir a democracia por dentro, numa ação semelhante a de vermes que tomam posse de uma estrutura oca até que sejam capazes de derrubá-la. O governo real é Meirelles, o Atlas tropical que carrega o golpe nas costas.
Ele conduziu a PEC que limita o teto de gastos — aquela que por 20 anos retira de governos eleitos o direito de definir o orçamento do país, tarefa que fica reservada aos mercados financeiros. Não abandona a reforma da Previdência, que pretende repassar o trilionário mercado das aposentadorias públicas para especuladores e larápios. Está à frente do enfraquecimento dos bancos públicos que cumprem um papel insubstituível num país como o nosso. Se não tomou a primeira iniciativa na entrega do pré-Sal, articulou e ajudou para que a operação fosse realizada no prazo mais breve, pelo preço mais conveniente aos adversários do país.
Em cada uma das tragédias anunciadas e decisões ruinosas tomadas no último ano e meio, um desastre histórico que ameaça várias gerações, pode-se encontrar o cérebro ou pelo menos o dedo de Meirelles. Não dá mais. Não estamos falando de questões legais, que não apareceram até agora. O problema é político.
Dia após dia as prioridades políticas e a visão de mundo do Ministro da Fazenda aparecem de forma límpida.
O plano contra o Brasil, perpetrado por brasileiros, está cada vez mais evidente, como um corpo estirado no chão. Desnudado, Meirelles está condenado a se torna mais fraco, a fazer novas e impensáveis concessões para se proteger.
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