Opinião

Estelionato espiritual

As eleições de 2018 têm revelado uma ambição massificada de várias Igrejas em alcançar o domínio político do país, convertendo o Estado em entidade moralmente teocrática, ignorando a pressuposição constitucional da laicidade estatal, apregoada pela combinação dos artigos 5º, VI, e 19, I, da Constituição

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O estelionatário é aquele que dá o golpe visando tirar vantagens, ele é corrupto e antiético por natureza. O Brasil vem convivendo parcimoniosamente, há anos, com um tipo sui generis de estelionato praticado pelos mais diversos credos, o estelionato espiritual, que se utiliza do poderoso argumento da “vontade de Deus” para manipular pusilanimemente pessoas, notadamente as mais vulneráveis intelectualmente, objetivando a satisfação de interesses induvidosamente alheios à comunhão e ao louvor. 

As eleições de 2018 têm revelado uma ambição massificada de várias Igrejas em alcançar o domínio político do país, convertendo o Estado em entidade moralmente teocrática, ignorando a pressuposição constitucional da laicidade estatal, apregoada pela combinação dos artigos 5º, VI, e 19, I, da Constituição. 

O apoio de Igrejas em torno de certas candidaturas transcende a preocupação, que deveria ser elementar, com a disseminação de valores cristãos. Alguém que reverbera suposta preocupação com a família, mas afirma coisas como (a uma mulher) “só não estupro você, porque você não merece” ou “tive quatro filhos homens; na quinta vez, fraquejei, e nasceu uma mulher”, não tem moral para se apresentar como defensor de qualquer família, sequer de sua própria. 

Realizar apologia à violência, inclusive banalizando a ação de matar e venerar a torturadores, e proliferar ideias apinhadas de misoginia, racismo e xenofobia, também escapa radicalmente aos princípios cristãos.

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Cortes 247

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