Opinião

Polarização e oportunismo

“Contornar a polarização política e social no Brasil de 2019 seria como arar no mar”, afirma o colunista José Reinaldo Carvalho. “Seriam apenas ingênuos os que apenas pretendessem fazê-lo, mas realizar a façanha aderindo ao inimigo é outra coisa, tem outro nome. Neste caso, agir para despolarizar é trair a causa das forças progressistas, uma…

Polarização e oportunismo
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Por José Reinaldo Carvalho, para Jornalistas pela Democracia – Numa de suas falas mais geniais, Fidel Castro disse, no comecinho do século 21 – tempo dos mais difíceis para o socialismo em Cuba, como para todo o movimento progressista mundial – que “revolução é sentido do momento histórico”.

O enunciado vinha acompanhado de uma série de considerações sobre princípios, convicções, ética, clareza de propósitos, patriotismo e defesa dos anseios de emancipação da humanidade. Em poucas linhas, com impressionante capacidade de síntese, com a verve filosófica que lhe era peculiar, Fidel formulou um conceito contemporâneo da luta por transformações sociais.

Cada caso é um caso e cada povo e nação enfrenta seus desafios com a ideologia que possui, nas condições peculiares que vive, o que requer soluções originais, inventividade, capacidade de apreender o xis da questão, a tendência da época e a partir disto mobilizar-se para encontrar soluções pertinentes aos próprios problemas. Mas há determinados princípios fundamentais da luta política que são incontornáveis. Um deles é este: quando uma força política perde o sentido do momento histórico, ela própria se perde.

Conheça e apoie o projeto Jornalistas pela Democracia – Vejamos o caso do Brasil deste início de 2019, sob o regime de extrema-direita liderado por Jair Bolsonaro e coadjuvado por toda uma malta de reacionários, como a maioria da Câmara liderada por Rodrigo Maia, juízes supremos, procuradores, generais, pastores neopentecostais et caterva. Sob a égide desse regime, há forças de esquerda que se perdem.

Do outro lado está o povo, com suas atribulações e anseios atropelados. Com ele, uma miríade de organizações políticas e sociais, enfrentando os problemas decorrentes da brutal ofensiva reacionária em curso, comandada pelo governo. Uma polarização de facto.

O país está polarizado por ação das leis do desenvolvimento histórico objetivo. Mas eis que surgem, não sei de que catacumbas, lideranças políticas a afirmar que a polarização existe por obra e graça do … “petê”. E que esta polarização interessa diretamente a Bolsonaro, como se houvesse uma rara conspiração entre o Palácio do Planalto e o cárcere da Rua Sandália Manzon, 210, Santa Cândida, Curitiba.

A polarização não só é de índole objetiva – portanto inevitável – como oportuna e necessária, mesmo que momentaneamente o polo progressista esteja mais fraco, em defensiva estratégica e carecendo de redefinições políticas e orgânicas, desafiado a percorrer um caminho árduo, acidentado e prolongado de acumulação de forças.

A polarização expressa os problemas sociais, as inexoráveis contradições, os inenarráveis conflitos, as lancinantes chagas que ferem, corroem e degradam a sociedade brasileira. É fruto das políticas ultraliberais do regime golpista protagonizado por Michel Temer e Rodrigo Maia e agora do de extrema-direita, de Jair Bolsonaro. É parte do drama nacional, quando o país é ameaçado de subjugação à superpotência norte-americana e se apresta a embarcar em aventuras intervencionistas e belicistas contra nações amigas.

A polarização brota da decadência civilizacional do Brasil, do apelo e estímulo oficiais à violência, da incitação ao crime simulando combatê-lo, da perseguição aos que não se rendem na vida pessoal e social à opressão de qualquer natureza nem fazem o jogo da simulação e hipocrisia.

A polarização está na criminalização da esquerda, dos movimentos sociais, na ameaça de extermínio de tudo o que na vida política é progressista e transformador.

Contornar a polarização seria como arar no mar. Seriam apenas ingênuos os que apenas pretendessem fazê-lo. Mas, realizar a façanha aderindo ao inimigo é outra coisa, tem outro nome. Neste caso, agir para “despolarizar” é trair a causa das forças progressistas, uma tese e uma prática a todos os títulos oportunista, o que na prática conduz a alianças espúrias e manobras políticas contraproducentes.

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Cortes 247

Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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