Por Gilvandro Filho, dos Jornalistas pela Democracia – A série de “entrevistas” de membros do governo e do clã dos Bolsonaro à TV Record e ao SBT – em menor medida à Rede TV – faz o jornalismo voltar aos tempos da ditadura militar. Naquela época, a televisão era, na prática, um órgão de comunicação oficial, cobrindo com fidelidade canina aos militares os atos e fatos do governo. Não que, nos últimos tempos, tenha se libertado dessa subserviência. Mas a coisa era oficial.
Ao assumir o poder após um golpe que derrubou o governo eleito e legítimo de João Goulart, os militares precisaram de uma imprensa confiável para garantir-lhes algum respaldo popular. Trataram, então de inflar uma emissora fiel e implodir a “hostil”.
Na época, a nova TV Globo (oriunda da TV Rio), do empresário e aliado Roberto Marinho, era o novo a se investir. A TV Excelsior, líder de audiência de então, a “praga” a se combater. A Globo dava os primeiros passos para ser a potência de hoje. E a Excelsior desapareceria meses depois, com uma canetada do marechal Humberto de Alencar Castelo Branco, presidente eleito indiretamente pelo destroçado Congresso Nacional. Castelo cassou a concessão da empresa de aviação PanAir do Brasil, cujo dono, Mário Wallace Simonsen, era apoiador de Jango. A Excelsior era do mesmo grupo e quebrou por tabela.
Aqui, um parêntese. Ninguém está dizendo aqui que a Globo de hoje vai se quedar como a Excelsior de ontem. Muito menos que a emissora de Edir Macedo será, pelas mãos de Bolsonaro e de todo o batalhão evangélico que o rodeia, a Globo do porvir. É difícil ver nos personagens de hoje estatura histórica e política para tal acontecer. Mas, cautela e caldo de legumes (sou vegetariano) não fazem mal a ninguém. Fecha parêntese.
As “entrevistas” (não tem como não ser entre aspas) deste domingo 20 não fogem à essência da programação da emissora apoiada (e que apoiava) pelo regime militar. A mais recente foi emblemática. Em cerca de 20 minutos, o senador eleito (diplomado, mas ainda não empossado) Flávio Bolsonaro discorreu a perguntas dóceis, com lacunas que o jornalismo, normalmente, não deixaria passar. A Globo, em pé de guerra, entregou o jogo-mole dos jornalistas da concorrente.
Compenetrado, o filho do presidente contou versão inverossímil de negócios com imóveis que lhe teriam rendido uma pequena fábula. Coisa de mais de 4,2 milhões em dois anos. Não convenceu. E deixou claro, apenas, de que tem muito explicar. Mais: que, no Brasil, além de Fabrício Queiroz, o ministro da Justiça sumiu.
Mas a semana teve mais. Teve o vídeo, gravado ainda na campanha, em setembro, mas viralizado nesses dias, em que de Flávio Bolsonaro chora ao falar do pai e enxuga lágrimas e sei mais o quê com a bandeira do Brasil. Um expediente desnecessário, forçado e que também em nada ajuda a ele no momento atual. Ainda faz mau uso da bandeira. Entra aí outra certeza: a de que o jovem está sem assessoria. Ou, se tem, que está gastando com assessor em vão.
A ideia de usar para marketing pessoal o “lindo pendão da esperança”, também conhecido como “símbolo augusto da paz”, foi algo muito tosco. Não se via algo tão primário e sem criatividade desde que o antecessor de Flávio, o Michelzinho, criou a logomarca do governo do Papai Temer e, genialmente, resgatou o “Ordem e Progresso” como slogan de gestão.
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