Opinião

Acordo de Bolsonaro finge que Tio Sam é Papai Noel

“O acordo militar Brasil-Estados Unidos se baseia numa visão utópica nas relações entre o império e governos em posição subalterna”, escreve Paulo Moreira Leite, do Jornalistas pela Democracia

Donald Trump e Jair Bolsonaro
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Por Paulo Moreira Leite, do Jornalistas pela Democracia

Comentando o acordo militar assinado entre Donald Trump e Jair Bolsonaro, o jornalista Roberto Godoy, especialista em assuntos militares, fez a seguinte advertência:  “pode ser bom, muito bom, desde que a regulamentação, a sintonia fina, a próxima fase do processo, estabeleça procedimentos de acesso ao estado da arte americana de produzir tecnologia militar”. (Estado de S. Paulo, 9/3/2020).

O problema, como sabemos, se encontra no célebre “desde que”…

Para acreditar que o governo norte-americano tenha decidido partilhar segredos militares com o país que é a segunda economia do Continente, e frequentemente mostra vontade de seguir seu próprio caminho, é preciso imaginar que a Casa Branca tenha decidido promover uma mudança radical nas relações com  vizinhos.

Foi em 1823 que a doutrina Monroe ( “A América para os americanos”), firmou-se como eixo de uma diplomacia de dominação no Continente, sem passar por mudanças substanciais ao longo de dois séculos.

Presente na economia e na política, essa  força também se mostra ativa na área militar, como se viu ao longo da história — em Cuba, na Republica Dominicana, no Chile de Salvador Allende, no auxílio norte-americano à conspiração contra João Goulart, em 1964.

Em 18/01/2020 o Washington Post revelou que durante meio século o governo os Estados Unidos utilizou um equipamento avançado de comunicações criptografadas para monitorar ações secretas entre governos de outros países. Detalhe. Não eram países inimigos — eram aliados.

A partir de máquinas Crypto AG, nome de fantasia de uma empresa suíça que pertencia a CIA, Washington tinha acesso “às comunicações de dezenas de países da Europa, Ásia, África e América Latina”.

Na década de 1970, quando as ditaduras sul-americanas organizaram a Operação Condor, destinada a sequestrar e assassinar adversários, de guerrilheiros a ministros de Estado, a Cripta AG servia como rede de comunicação entre os governos envolvidos. Tudo era mantido em segredo, menos para Washington — inclusive ações que implicavam em tortura e morte.

Após tantas experiências trágicas, impossível imaginar que um acordo militar Brasil-Estados Unidos possa trazer benefícios ao interesse nacional. Pelo contrário. Destina-se a reforçar a dependência em relação aos Estados Unidos.

Mesmo em passos tímidos, nos governos Vargas e JK, e também no período Lula-Dilma, os brasileiros já demonstraram que não desistiram de construir uma nação dona de seu destino.

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