Fernando Pessoa e seus heterônimos Bernardo de Campos, Alberto Caieiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos estão isolados durante a pandemia de Covid-19. Os cinco dividem a cozinha de uma quitinete em Lisboa.
Pessoa (suspirando): Mais de nove meses, nunca mais vai acabar essa maldita peste!
Álvaro: Chega, Fernando, já repetiste este bordão mais de mil vezes, nem pareces um poeta modernista, assemelha-te mais a um romântico choroso.
Bernardo (passando pano): Deixa o Fernando em paz, vai praticar a tua engenharia em versos.
Álvaro: Prefiro ser um técnico a um lambe-botas do dono da casa.
Bernardo: Lambe-botas, eu? Sou apenas admirador do estilo dele.
Pessoa: Acalmem-se, gajos, faz favor. Nesse momento, precisamos pensar na saúde do Alberto.(Alberto aparece deitado num colchão, delirando).
Álvaro: O que houve com o Caieiro?
Pessoa: Tuberculoso. De novo.
Caieiro (delirante): Quando vier a primavera, se eu já estiver morto, as flores florirão da mesma maneira…
Bernardo: Ó, céus: logo vai dar o peido-mestre!
Álvaro: E, claro…é do grupo de risco.
Bernardo (interrompendo e apontando para Ricardo Reis): E tu, Ricardo, não és médico?
Ricardo: Sou, mas só atendo os monarquistas como eu. Nunca prestaria serviços a este camponês que só fez a escola primária.
Álvaro: Vejam só como são as coisas: um decadente se dizendo avesso ao decadentismo.
Álvaro: Arre, estou farto de semideuses! Onde é que há gente no mundo? Nas ruas é que não estão, é claro. Olha lá fora, não se vê vivalma em Lisboa.
Ricardo: Pode ser, caro bardo. Mas ficarei aqui comendo minha sobremesa. Cada um com seus problemas…
Álvaro (irônico): Come chocolates, Ricardo; come chocolates! Olha que não há mais empatia no mundo senão chocolates!
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