Opinião

Um show exclusivo de Elis

Hoje é dia de lembrar Elis. De apelido, “Pimentinha”. Porque era talentosa, porque era uma mulher que marcou o seu tempo – apesar da negação dos jovens, que não viram suas apresentações feitas com o estômago, com o coração”, escreve Denise Assis, do Jornalistas pela Democracia

Trinta anos sem Elis Regina
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Por Denise Assis, para o Jornalistas pela Democracia

Hoje é dia de lembrar Elis. De apelido, “Pimentinha”. Porque era talentosa, porque era uma mulher que marcou o seu tempo – apesar da negação dos jovens, que não viram suas apresentações feitas com o estômago, com o coração –, e porque era uma explosão de emoções. E aí, claro, sobrava para todos os campos.

Fui testemunha de uma delas, quando nos idos de 1977 ou 1978, não me lembro exatamente, quando ela e Ronaldo Bôscoli, embolados naquele momento em que o fim do casamento mistura a vontade de querer e a raiva de querer, começaram a disputar a guarda do filho. Ou melhor, reescrevendo: Bôscoli, para fustigá-la, escreveu uma carta em que mencionava o direito de ter o filho com ele, e a publicou na “Revista Amiga”.

A “Revista Amiga” era a “Caras” da época, com muito mais tempero, pois se ocupava, na linguagem nada polida do meu editor, com “quem está comendo quem”, costumava esbravejar pela redação da Bloch Editora, quando algum repórter, querendo dar ao próprio trabalho um ar um pouco mais “intelectual”, sugeria: ‘que tal fazermos uma matéria sobre os rumos da MPB?’. E ele, desbocado, devolvia: ‘sabe pra onde está indo a MPB? Pra a casa do c…”.

Sim, comecei no jornalismo nesse ambiente, o que me forjou para encarar qualquer pauleira, daí por diante. Aprendi todos os palavrões que sei, graças ao vasto repertório do editor da Revista Amiga.

Naquele dia, fui escalada para ir até a casa de Elis, em São Conrado, no Rio, ver se ela queria responder à carta de Bôscoli. (Claro, para o editor convinha fomentar a polêmica para aumentar a tiragem da revista). O casarão ficava no alto, com vista deslumbrante para o mar. No portão, na Avenida Niemeyer, havia um interfone. Apertei e foi ela, a própria, quem atendeu. Eu me apresentei e quando mencionei o assunto que pretendia abordar, não esperei muito. Logo vi um pé de sapato ser arremessado contra o portão gradeado. Depois veio um ursinho de pelúcia, depois o outro pé do sapato, depois uma jarra, depois um prato… E tudo isto seguido daqueles palavrões todos que eu havia aprendido na redação da revista, onde ela parecia ter feito um “intensivão”.

Sem o menor sinal de receptividade, convidei o fotógrafo João Silva para retornarmos “à base”, como era o jargão usado por nós, jornalistas. Demos meia volta às gargalhadas com a situação. Acabávamos de ser brindados com um show exclusivo da “Pimentinha”. Hoje, agradeço. Eu conheci Elis.

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Cortes 247

Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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