Fortalecimento da indústria nacional exige domínio da cadeia de minerais críticos, avalia diretor do BNDES 

José Luiz Gordon deende a ampliação dos investimentos para que o país deixe de exportar apenas matéria-prima e passe a produzir bens de alto valor agregado

José Luis Gordon
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247 – O Brasil reúne uma das maiores reservas de minerais críticos do mundo e pretende transformar essa vantagem em desenvolvimento industrial, inovação e geração de tecnologia. A avaliação é do diretor de Desenvolvimento Produtivo, Inovação e Comércio Exterior do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), José Luiz Gordon, que defendeu a ampliação dos investimentos para que o país deixe de exportar apenas matéria-prima e passe a produzir bens de alto valor agregado.

Em entrevista à Sputnik Brasil, Gordon afirmou que a estratégia brasileira busca aproveitar o novo cenário internacional, marcado pela disputa em torno das terras raras e de outros minerais essenciais para a transição energética, a indústria de alta tecnologia e os setores de defesa e semicondutores.

País quer agregar valor à produção mineral

Segundo o diretor, o Brasil não pretende repetir o modelo histórico de exportação de recursos naturais sem industrialização. A meta é desenvolver uma cadeia produtiva capaz de fabricar produtos como baterias, veículos elétricos, turbinas eólicas, semicondutores e equipamentos estratégicos.

“O mundo tomou a decisão de que não quer ficar dependente de um único país”, afirmou Gordon, ao comentar o movimento global para diversificar o fornecimento de minerais críticos.

Na avaliação do executivo, a concentração do processamento mundial de terras raras na China acelerou a busca por novos fornecedores capazes de agregar valor à produção. “A gente não quer simplesmente vender, exportar o mineral. A gente quer também agregar valor na cadeia de minerais críticos”, declarou.

Política industrial volta ao centro da estratégia

Para Gordon, o fortalecimento da política industrial marca uma mudança importante na economia mundial. Segundo ele, organismos como a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial passaram a reconhecer novamente a importância de políticas públicas voltadas ao desenvolvimento produtivo.

“O mundo voltou a fazer política industrial de forma explícita. E os minerais críticos ocupam posição central nessa agenda, por seu potencial de agregar valor à produção e fortalecer a base industrial brasileira.”

Nesse contexto, o BNDES atua como um dos principais instrumentos do programa Nova Indústria Brasil (NIB), oferecendo linhas de financiamento para empresas de diferentes etapas da cadeia mineral.

Fundo com a Vale e novos financiamentos

Entre as iniciativas em andamento está o Fundo de Investimento em Participações (FIP), criado em parceria com a Vale para financiar as chamadas junior companies, empresas que ainda estão na fase de prospecção de jazidas minerais.

Outra frente de atuação é o edital desenvolvido em conjunto com a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), destinado ao beneficiamento mineral — etapa responsável por agregar valor aos minérios extraídos.

Segundo Gordon, o interesse do setor privado superou as expectativas. “Qualificamos 56 projetos. Isso dá algo em torno de R$ 45 bilhões a R$ 50 bilhões. Nós estamos agora conversando com cada uma dessas empresas para ver como é que nós podemos apoiá-las ao longo da trajetória de investimentos dela.”

Além do edital, o banco disponibiliza linhas como Fundo Clima, Mais Inovação e Brasil Soberano, além da possibilidade de participação acionária por meio do BNDESPar.

O diretor também destacou o uso do Fundo Garantidor da Exportação (FGE) para ampliar o acesso ao crédito das empresas do setor.  “Podemos também pensar em usar o Fundo Garantidor da Exportação (FGE), para apoio a garantias dessas empresas, porque são normalmente junior companies, precisam de garantias para financiamento.”

Petrobras integra estratégia de desenvolvimento

A Petrobras também passa a integrar a estratégia nacional para minerais críticos. Segundo Gordon, a estatal poderá participar tanto do fundo criado em parceria com a Vale quanto de projetos voltados ao desenvolvimento tecnológico.

Uma das iniciativas envolve pesquisas conduzidas pelo Centro de Pesquisas da Petrobras (Cenpes), em parceria com o BNDES. “Nós estamos agora na fase de exatamente montar o plano de trabalho, as prioridades, entender para onde a Petrobras quer ir e como é que o BNDES pode apoiar.”

Outra frente é o edital do Ministério de Minas e Energia para Sistemas de Armazenamento de Energia em Baterias (BEES), previsto para o segundo semestre.

“Isso estimula a produção local e a cadeia de minerais. Ou seja, agregação de valor para atender o conteúdo local de produção de BEES no Brasil.”

Brasil busca parceiros internacionais

Gordon afirmou que o país pretende ampliar a cooperação internacional, mas condiciona novos investimentos à instalação de atividades industriais em território nacional. “O Brasil é um país multilateral”, afirmou.

Segundo ele, o governo pretende trabalhar com parceiros interessados em desenvolver projetos de agregação de valor no Brasil. “Nós não escolhemos um parceiro, mas nós escolhemos os bons projetos e quem quer trabalhar com o Brasil.”

Expansão será acompanhada de rigor ambiental

Embora considere urgente o fortalecimento da cadeia de minerais críticos, o diretor ressaltou que o banco manterá seus critérios de responsabilidade socioambiental.

Segundo Gordon, cada mineral possui características próprias, exigindo análises específicas quanto aos impactos ambientais e à viabilidade econômica dos projetos. “Todos os bons projetos que tiverem viabilidade econômica e poderem pegar crédito, o BNDES vai procurar apoiar.”

Ele enfatizou que o rigor ambiental continuará sendo uma exigência para todas as iniciativas apoiadas pela instituição. “Isso vai ser seguido para todos os projetos de mineração que forem apoiados.”

Os minerais críticos — como lítio, níquel, cobre, cobalto, grafite e terras raras — são considerados estratégicos para a transição energética, a digitalização da economia, a indústria automotiva, a produção de semicondutores, o setor aeroespacial e a fabricação de equipamentos de defesa. O fortalecimento dessa cadeia produtiva é uma das prioridades da Nova Indústria Brasil e integra a estratégia do governo federal para ampliar a capacidade industrial, tecnológica e de inovação do país.

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