Opinião

Velho tapetão da impunidade tenta proteger PMs que executaram carroceiro

“No país onde o júri popular é previsto apenas para crimes contra a vida humana, investigação pode ser resolvida a portas fechadas”, escreve Paulo Moreira Leite

Polícia Militar de São Paulo
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Cinco anos depois, a execução criminosa do carroceiro Ricardo Silva Nascimento, 39 anos, alvejado  com dois tiros no peito por um PM a poucos metros de um Pão de Açucar de Pinheiros, em São Paulo, irá enfrentar uma passagem decisiva na trajetória que separa um julgamento correto de uma fraude jurídica, igual a tantas outras que protegem a violência contra pretos e pobres do país.

Na manhá de hoje, no Fórum Criminal da Barra Funda, será decidido se os dois policiais militares — José Marques Medalhano e Augusto Cesar da Silva Liberalli — irão a júri popular responder pelo crime. Ou se poderão contar com os benefícios de um julgamento a portas fechadas, ambiente que costuma ser benéfico aos acusados — culpados ou não. 

Chocante, pela violência, injustificável, por qualquer aspecto, quando se recorda o comportamento cordato da vítima, o assassinato tornou-se um pequeno marco na história democrática de um país onde crimes dessa natureza aparecem todos os dias nos jornais e raramente provocam reações maiores. 

Em 2017, a  indignação mobilizou lideranças e personalidades que  no passado ajudaram a transformar a Praça da Sé, no centro de São Paulo, num dos centros geográficos da resistência à ditadura. 

Trinta e nove anos anos depois do histórico culto ecumênico em protesto pela morte do jornalista Vladimir Herzog, que abriu uma nova etapa na luta contra o regime militar, o mesmo Audálio Dantas (1929-2018), presidente do sindicato dos jornalistas em 1975, compareceu a Sé para manifestar sua indignação — em nova conjuntura, décadas depois. 

Em vez da hierarquia católica, bem representada em 1975 pela firmeza corajosa do Cardeal Arns, ali estava o padre Julio Lancellotti, a primeira voz do Brasil oficial a reconhecer a dignidade invisibilizada de aflitos que sobrevivem no porão da sociedade — dos quais Ricardo Nascimento  tornou-se uma referência trágica, depois de uma existência descrita como afável e mesmo simpática.

No esforço para garantir aquele que é um direito de todos — um julgamento justo — lideranças que ajudaram a organizar o protesto na Sé, há cinco anos, organizam uma manifestação hoje, ao meio dia, no Fórum Criminal da Barra Funda. Exigem  que os PMs acusados, José Marques Medalhano e Augusto Cesar Liberalli, sejam submetidos a júri popular, como determina a lei. 

Não querem nenhum tipo de privilégio  — apenas neutralizar a espessa muralha de impunidade que protege a violência permanente de agentes do Estado contra pobres e pretos.

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Cortes 247

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