Opinião

Como a burguesia argentina abriu a porta de seu inferno

“O pleito argentino se encerra como tantas disputas de nossa época”, escreve Paulo Moreira Leite

Javier Milei
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No esforço para compreender o que se passou no país vizinho, é preciso reconstituir um fato importante. Além do personagem decisivo da eleição presidencial argentina, o candidato Javier Milei, vitorioso no segundo turno, cabe reconhecer o papel da terceira colocada na rodada inicial, Patricia Bullrich.

Quando se reconstitui as horas dramáticas onde se produziu uma derrota política que terá impacto nos destinos de todo continente sul-americano, cabe registrar o fato decisivo. No primeiro turno, o peronista Sergio Massa foi vitorioso por uma diferença respeitável: 36% dos votos válidos, contra 30% para Milei.

Caso tivesse alcançado ali os 40% mais 1 dos votos, um décimo a mais do que obteve na primeira rodada, Massa teria atingido o patamar suficiente, pelas leis eleitorais do país, para garantir a vitória.

Proeza surpreendente para um ministro da economia, responsável nominal por um desastre histórico: inflação anual perto de 140%, desemprego nas alturas e vários sinais deprimentes de colapso num serviço público que já foi referência no Continente.

Os números finais mostram que o vencedor Milei não virou a eleição com méritos próprios, mas com um auxílio providencial — a terceira colocada Patrícia Bullrich. Com 23,08% dos votos no primeiro turno, ela ofereceu a Mllei o apoio que resolveu a eleição na segunda rodada, num salto que chegou a 55,6% dos votos válidos, enquanto Massa ficava com 44,3% depois de cravar boa vantagem no primeiro turno.

Num resultado que nem de longe reflete a vontade clara do eleitorado, mas uma saída provisória antes da próxima catástrofe, o pleito argentino se encerra como tantas disputas de nossa época, que abrem saídas de curta duração para crises que se anunciam sempre mais profundas, onde um país desce um nível abaixo de seu inferno político.

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