Opinião

A tragédia no Rio Grande do Sul

“O que era para ser uma tranquila viagem a dois – como da outra vez, que viemos juntos a Porto Alegre – se transformou em caos, desespero, ansiedade e medo”

Casas destruídas pelas enchentes em Jacarezinho (RS)
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Porto Alegre – Por conta de um evento cultural, eu e a Sheila acabamos nos envolvendo na pior tragédia climática de todos os tempos no Rio Grande do Sul.

Eu, preso em um hotel em Porto Alegre – no bairro Moinho de Ventos – e ela a bordo de um avião, em São Paulo, que a impediu de chegar à capital gaúcha.

O que era para ser uma tranquila viagem a dois – como da outra vez, que viemos juntos a Porto Alegre – se transformou em caos, desespero, ansiedade e medo.

A capital do Rio Grande do Sul vive sua maior tragédia, por conta das chuvas, desde 1941. As chuvas que castigam o estado do sul, desde o último dia 25 de abril, já fizeram mais de 100 vítimas fatais. Para piorar, faltam água, energia, comida e transporte para os moradores das áreas mais afetadas.

O bloqueio de estradas, do Aeroporto Internacional Salgado Filho e as enchentes provocadas pela elevação recorde das águas do Rio Guaíba, que nos impediram de deixar a cidade, tem dificultado a chegada de doações.

De acordo com a Defesa Civil gaúcha, em boletim divulgado na noite de ontem, além dos mais de 100 mortos, 135 pessoas são tidas como desaparecidas. O Aeroporto Internacional Salgado Filho, principal porta de entrada e saída da capital gaúcha, segue fechado por tempo indeterminado. E a previsão é que continue assim até o fim do mês.

As chuvas também provocaram danos e alterações no tráfego nas rodovias estaduais gaúchas. Até ontem havia 99 trechos em 42 rodovias estaduais gaúchas, com bloqueios totais e parciais. Conseguimos, eu e mais 15 pessoas que estavamos hospedadas no mesmo hotel, deixar a cidade em uma van alugada pelo litoral, rumo a Florianópolis. De lá, segui para São Paulo e, finalmente , Rio de Janeiro.

Amigos que fiz na viagem, ficaram para trás. Espero que estejam bem.

A tragédia, no entanto, mostra que chegamos a um ponto que é fácil imaginar o início da destruição total do planeta. O cenário no Rio Grande do Sul é apocalíptico. Reflexo da destruição da floresta amazônica – a única que resta no mundo depois da destruição das florestas da China e da Índia, séculos atrás -da desertificação provocada por experiências termonucleares; dos desastres ecológicos (como o de Brumadinhos); do garimpo ilegal; da chuva ácida; do lixo químico – sem falar na pobreza, miséria, violência urbana, déficit de moradia e super-população.

Gary Snider, um poeta beat, disse uma vez que a terra só tem condições de suportar 10 por cento de sua população atual – se não será rapidamente destruída pelo esgotamento dos recursos naturais.

É isso que estamos vivendo, creio, e acho que a espécie humana deveria começar a se preocupar. Todos nós, mas especialmente os políticos.

Ou viveremos novas tragédias como a que estamos vivendo no Rio Grande do Sul.

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Cortes 247

Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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