Era José, Maria e o menino Jesus, o burrinho e o boi não. A cidade onde se erigiu a igreja da Natividade abrigou um casal simples da Galileia, o qual perambulou pelas cercanias buscando refúgio e acabou passando a noite de natal numa manjedoura.
Belém localiza-se em território palestino, na Cisjordânia. Jesus, neste natal pode-se dizer, é palestino! De lá é possível ver os mísseis caindo sobre Gaza e o mais absurdo é que Herodes também matou muitas crianças e mães destas. A família sagrada estaria sob cerco, sem água e alimentos. Dessa Gaza estilhaçada, de fotos de paredes caídas, de móveis e corpos imóveis, debaixo estão os vulneráveis e nossa vergonha insepulta, acrescente-se as da Ucrânia e as do Brasil, as quais vulneráveis são submetidas à morte e/ou gravidez indesejável. Não se veem os vulneráveis e suas famílias, estão escondidos sob a ponte onde foi descartado violentamente um cidadão pela sociedade. Para quem mora sob a ponte, até o natal é um perigo!
Em Belém se consuma o cartão postal da Cristandade de Família Sagrada, de pais héteros e filho solteiro. Na linha dos fundamentalistas, o livro do Gênesis afirma que o casal Adão e Eva foram feitos respectivamente do barro e da costela humana. Contudo, na bíblia, não há menção de nenhuma filha destes e sim de três filhos, Abel, Caim e Seth. Se eram os únicos filhos, e masculinos, com quais mulheres geraram? De onde vieram a segunda e as sucessivas gerações humanas? Há muitos tipos de família os quais não se prendem à concepção uterina. Nem sempre de pais ou mães héteros e filhos predestinados a compensar os sonhos ou obsessões dos pais – “eu não consegui, mas meu filho vai!”
A ideia de um casal edênico e dos casadinhos de Nazaré dão uma visão restrita de família, pois celebra um tipo específico familiar, de pais héteros e filhos sucessores. A propalada Família Sagrada é de uma mãe quase solo, cujo esposo José evitou repudiá-la para a moça não ser apedrejada. Temos a mãe, o padrasto e o filho predestinado. Famílias se formam, se arranjam no tempo e no espaço, se constituem. Da mãe solo, do pai que cria, do filho que não dá netos e de filhos ou filhas com orientações sexuais próprias, que por si, formarão casais não convencionais.
Num belo presépio estrelado estão José, Maria, Jesus, o burrinho, o boi, os magos com presentes, os anjos anunciadores e os alegres pastores. Afinal, é um dia de festa. Se não temos os presentes de magos, que tal as lembrancinhas? Família é a instância do afeto, mas também dos direitos e deveres recíprocos e marca de uma humanidade amadurecida. Onde estão os órfãos, as viúvas, as mães solo, os estrangeiros, as crianças, os idosos, os com necessidades especiais, as minorias étnicas e raciais, os LGBTQIA+, os povos originários, os refugiados e os deslocados, os moradores de rua e outros?
O presépio em carne viva está exposto o ano todo, mas somente no Natal é instalado o arremedo natalício na fonte luminosa da praça pública. Abaixo, deambulam os anônimos com seus molambos numa realidade perdida, varridos pelos natais afora ou lançados da ponte, sem lugar no sagrado presépio. O natal é um perigo!
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