Apenas o invencível preconceito contra o universo popular dos brasileiros explica a dificuldade de muitas pessoas comemorarem uma vitória como o 4 a 0 sobre a Dinamarca, ontem.
Embora a primeira profissão de meus sonhos tenha sido jogador de futebol, minha vida cotidiana passa longe dos estádios. Não lembro a última vez que saí de casa para ver um jogo e raramente tenho disposição para passar 90 minutos inteiros em frente a TV.
Se me perguntarem a escalação da Seleção Brasileira de hoje não vou acertar o nome do goleiro. Posso lembrar o time inteiro do Santos nos anos 1960 mas é claro que estamos falando de um desses troféus inesquecíveis que revelam a memória adolescente e não conhecimento real.
Mas tenho vivência para entender que o futebol faz parte da cultura profunda dos brasileiros. Por todos os seus mistérios, os evidentes e os ocultos, muitos só acessíveis àqueles que tentaram aprender o maravilhoso ofício de controlar uma bola com os pés, uma exibição da Seleção pode ser tão sublime, sei lá, como uma canção de Chico Buarque.
Faço parte de uma geração que, resistindo a ditadura militar, chegou a torcer contra a Seleção na Copa de 1970. A motivação era justa mas estávamos errados.
A seleção, ainda mais aquela, era um símbolo do Brasil dos brasileiros, provisoriamente usurpado por generais que iam aos estádios durante o dia e comandavam a tortura a noite. Em qualquer caso, grande demais para ser tratada como propriedade particular de um regime espúrio.
Esta foi a emoção real da vitória de ontem. Num país que atravessa um dos momentos mais difíceis de sua história, com tantas sombras e dúvidas pela frente, o 4 a 0 foi uma reação contra um massacre, contra um destino injusto e ameaças tenebrosas. Mostrou que é possível superar dificuldades tão grandes que parecem invencíveis, que não se limitam ao que se passa no gramado, que podem estar mais próximas do que se imagina.
É o simbólico, o simbólico!, que pessoas supostamente cultas tem muita dificuldade de compreender quando não envolvem seus próprios símbolos.
No Brasil de 2016, muitas coisas seguem fora do lugar. As principais, como o emprego, o salário, a liberdade, a democracia.
Não custa lembrar que tentaram até reestabelecer a censura, proibindo o povo de gritar Fora Temer! para o mundo inteiro ouvir. Tinham vergonha daquilo que envergonha. E é sintomático que a proibição tenha começado nos estádios, com a desculpa tipicamente AI-5 que são locais para se falar de esporte, não de política.
A goleada de uma seleção que entrou em campo sob ameaça de ser eliminada na primeira fase de uma Olimpíada realizada em seu próprio país mostra que não há adversidade invencível.
Lembrando que o primeiro esforço de uma tirania consiste em criar uma população de cidadãos amedrontados, derrotados, a goleada é um valor em si. Merece ser comemorada.
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