Por Paulo Moreira Leite
“Infeliz do povo que precisa de heróis”, diz Galileu Galilei, na peça de Bertold Brecht, obra-prima que pude assistir em 1968, no Teatro Oficina de José Celso Martinez Correa num espetáculo belo e vigoroso que marcou várias gerações — inclusive a minha.
Pedro I é o personagem sob medida para este papel num país onde a história se fez através de mudanças inconclusas e acordos destinados a cumprir o mais velho mandamento conservador (“é preciso que tudo mude para que nada mude”), formulado com precisão científica por dom Tomasi de Lampedusa, descrevendo o processo de acomodação entre a nobreza e a burguesia que transformou a Itália num dos países retardatários da Europa.
Não existe pecado original nos processos históricos. Mas é inegável que o grito do Ipiranga foi o primeiro ato de um pacto de sobrevivência entre a aristocracia lusitana e o imperialismo, que jamais seria rompido ao longo de dois séculos.
A espada de Pedro I traçou as linhas iniciais de comportamento de uma nação dependente por fora e desigual por dentro, consolidando estruturas de dominação externa que só iriam ser reforçadas ao longo de dois séculos.
O pacto de submissão logo seria selado com ouro e sangue por Lord Thomas Cochrane, mercenário escocês contratado pelo Imperador para massacrar revoltas por uma independência real que explodiram em Pernambuco e estados vizinhos que formaram na Confederação do Equador, e também no Maranhão, que até hoje aguardam a justa homenagem da História.
Nascia ali um padrão, que seria repetido várias vezes ao longo de séculos — ajuda externa para enfrentar rebeliões internas, inclusive durante a ditadura de 64, que empregava métodos de tortura desenvolvidos nos Estados Unidos, de onde saíram os mestres de Jair Bolsonaro.
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