O Rio de Janeiro já foi um dos principais motores do desenvolvimento brasileiro. Durante décadas, concentrou centros decisórios, infraestrutura estratégica, instituições de pesquisa e um parque industrial que impulsionava a economia nacional. No entanto, esse protagonismo foi sendo perdido. A transferência da capital para Brasília, realizada sem mecanismos de compensação econômica, inaugurou um longo período de perda de dinamismo que jamais foi enfrentado por um projeto consistente de desenvolvimento para o estado.
Os números revelam essa trajetória. Entre 1970 e 2023, a participação do Rio de Janeiro no Produto Interno Bruto nacional caiu de 16,67% para 10,72%, segundo o IBGE. No mercado de trabalho, a situação é igualmente preocupante. Entre 1985 e 2025, o emprego formal cresceu apenas 82,2% no estado, enquanto o crescimento nacional alcançou 192,7%, conforme dados da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS). Trata-se do menor crescimento entre todas as unidades da federação.
O processo de desindustrialização aprofundou esse cenário. No mesmo período, o emprego formal na indústria de transformação recuou 19,7% no Rio de Janeiro, enquanto cresceu 65,7% no conjunto do país. O estado, que durante muitos anos ocupou a segunda posição nacional em empregos industriais, foi ultrapassado por Minas Gerais, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Essa perda não representa apenas uma mudança estatística. Ela significa menor capacidade de inovação, redução da produtividade, enfraquecimento das cadeias produtivas e menor geração de empregos de qualidade.
A consequência inevitável foi o enfraquecimento da capacidade financeira do Estado. Em 2004, Minas Gerais ultrapassou o Rio de Janeiro na arrecadação de ICMS, evidenciando que a perda de dinamismo econômico também comprometeu a capacidade de investimento público e de formulação de políticas estruturantes.
Esse processo não decorre de uma suposta falta de vocação econômica do Rio de Janeiro. Ao contrário: poucos estados brasileiros reúnem tantos ativos estratégicos. O Rio concentra universidades públicas de excelência, centros de pesquisa reconhecidos internacionalmente, instituições científicas como a Fiocruz, um parque industrial diversificado, infraestrutura logística, reservas energéticas e uma localização privilegiada. O que faltou nas últimas décadas foi um projeto capaz de integrar essas potencialidades em uma estratégia permanente de desenvolvimento.
É justamente nesse contexto que o Brasil volta a oferecer uma oportunidade histórica. Desde 2023, o Governo Federal recolocou o desenvolvimento produtivo no centro da agenda nacional. A Nova Indústria Brasil representa a retomada de uma política industrial moderna, baseada em inovação, sustentabilidade, fortalecimento das cadeias produtivas e geração de empregos qualificados. O Novo PAC recupera a capacidade de investimento em infraestrutura. O fortalecimento do Complexo Econômico-Industrial da Saúde recoloca a produção nacional de medicamentos, vacinas, equipamentos e tecnologias em posição estratégica para o desenvolvimento do país.
Poucos estados estão tão preparados para aproveitar esse novo ciclo quanto o Rio de Janeiro. A presença da Fiocruz, de universidades, hospitais de referência, institutos de pesquisa e empresas da área da saúde cria condições excepcionais para transformar o Complexo Econômico-Industrial da Saúde em um dos principais motores da economia fluminense nas próximas décadas. Não se trata apenas de produzir insumos para o Sistema Único de Saúde. Trata-se de gerar conhecimento, inovação, empregos altamente qualificados e desenvolvimento regional.
Da mesma forma, os investimentos em infraestrutura previstos pelo Governo Federal representam uma oportunidade para enfrentar gargalos históricos que limitam a competitividade do estado. A ampliação do saneamento, da mobilidade urbana, da logística, da infraestrutura digital e da habitação de qualidade melhora a vida da população e cria condições para a atração de novos investimentos privados.
A adesão do Rio de Janeiro ao PROPAG também inaugura um novo horizonte para as finanças estaduais. Ao substituir a lógica restritiva do Regime de Recuperação Fiscal por um modelo que amplia a capacidade de planejamento e investimento, abre-se espaço para fortalecer serviços públicos, valorizar os servidores e reconstruir a capacidade do Estado de induzir o desenvolvimento econômico.
Entretanto, nenhuma oportunidade produz resultados por si só. É indispensável que o Governo do Estado assuma o protagonismo na construção de uma estratégia de desenvolvimento articulada com as políticas nacionais. Isso significa fortalecer a política industrial, ampliar os investimentos em ciência, tecnologia e inovação, integrar universidades e setor produtivo, estimular a economia criativa, desenvolver a economia do mar, fortalecer a indústria da defesa, consolidar cadeias produtivas ligadas à transição energética e reduzir as profundas desigualdades territoriais que marcam regiões como a Baixada Fluminense, São Gonçalo e diversas áreas do interior.
A experiência internacional demonstra que nenhuma economia alcançou elevados níveis de desenvolvimento sem planejamento estratégico, investimento público e coordenação entre Estado, setor produtivo e comunidade científica. O mercado é um instrumento importante para a geração de riqueza, mas não substitui a capacidade do poder público de orientar investimentos, reduzir desigualdades e construir políticas de longo prazo.
O Rio de Janeiro não precisa escolher entre responsabilidade fiscal e desenvolvimento. Ao contrário: o crescimento sustentável fortalece as finanças públicas, amplia a arrecadação e melhora a capacidade do Estado de oferecer serviços públicos de qualidade. O verdadeiro equilíbrio fiscal é consequência de uma economia dinâmica, inovadora e capaz de gerar empregos e renda.
Depois de décadas marcadas pela ausência de planejamento e pela perda de protagonismo econômico, o estado encontra uma oportunidade concreta para reconstruir seu futuro. O novo ciclo de desenvolvimento impulsionado pelo Governo Federal oferece instrumentos, investimentos e diretrizes que dialogam diretamente com as potencialidades fluminenses. Cabe agora transformar essa oportunidade em um projeto de Estado, comprometido com a reindustrialização, a valorização da ciência, a geração de empregos, a redução das desigualdades e a melhoria da qualidade de vida da população.
O Rio de Janeiro tem jeito. E esse caminho passa por recolocar o desenvolvimento, a justiça social e a capacidade de planejamento do Estado no centro da agenda pública.
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