Opinião

O show de horrores na Argentina

A pobreza atinge mais de 52% dos argentinos, enquanto o custo de vida dispara e os salários ficam para trás

O presidente argentino, Javier Milei, encabeça show de rock em meio à crise econômica e política no país
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Não me refiro ao espetáculo bufônico – se não fosse trágico – encenado por Javier Milei em uma casa de shows em Buenos Aires nesta semana. Ainda que a cena reflita com exatidão o mundo de fantasia em que parece viver o humorista e dublê de presidente argentino.

Falo da realidade de caos imposta ao país pela receita ultraliberal – e cada vez mais corrupta – de Milei. A inflação segue alta, com forte descontrole dos preços. O peso argentino sofre desvalorizações diárias frente ao dólar, o que estimula a corrida pela moeda norte-americana como forma de proteção.

Com o consumo em queda e a confiança dos investidores abalada, a produção encolhe. Os juros continuam entre os mais altos do planeta – a Argentina é hoje o segundo país com maior taxa de juros reais, atrás apenas da Turquia -, o que encarece o crédito e trava o crescimento do PIB.

Mas o mais grave são os impactos dessa política sobre a vida das pessoas. A pobreza atinge mais de 52% dos argentinos, enquanto o custo de vida dispara e os salários ficam para trás. Em meio a esse cenário, o governo corta orçamentos de serviços públicos e desmonta políticas de assistência social. O desemprego permanece elevado e a informalidade se espalha como saída de sobrevivência.

E como em todo governo messiânico que promete “acabar com os corruptos”, a corrupção campeia. A irmã do presidente, Karina Milei – apresentada por ele a Donald Trump como “la jefa”, “a chefe” -, é citada em um escândalo de propinas na Agência Nacional de Deficiência (ANDIS), acusada de receber 3% de suborno em contratos públicos de medicamentos. Propina aqui no bom e velho português: retorno financeiro ilícito para agentes do governo.

Mais recentemente, outro escândalo: o principal candidato do partido de Milei às próximas eleições legislativas, José Luis Espert, admitiu ter recebido US$ 200 mil de Fred Machado, um empresário investigado por narcotráfico, além de ter viajado dezenas de vezes em seu jatinho. A suspeita de infiltração do crime organizado no entorno do governo Milei é hoje uma preocupação real entre os argentinos.

E os atos de horror desse ator que se julga comediante não param aí: o golpe das criptomoedas “$Libra”, promovido nas próprias redes de Milei, que deixou milhares de pequenos investidores no prejuízo, e a tentativa de reduzir aposentadorias e pensões, mostram o tamanho da crueldade e da esperteza.

O quadro geral aponta para uma derrota expressiva de Milei nas eleições de 26 de outubro, seguindo a tendência já vista na Província de Buenos Aires, onde a oposição venceu com ampla vantagem em votação antecipada.

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Cortes 247

Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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