Opinião

O suicídio de Javier Milei

‘Os argentinos não vão jogar terra na cova em que o neoliberalismo os meteu. Javier Milei é tão louco quanto parece’, escreve o colunista Eduardo Guimarães

Javier Milei, candidato da extrema direita da Argentina
Siga o 247 no Google Notícias Seguir no Google Notícias Adicione o Brasil 247 como fonte preferencial no Google Apoie o jornalismo independente Apoie o 247

Na Argentina, dezembro de 2001 é um mês que jamais terminou. No 1° dia daquele mês fatídico e inesquecível, foi implantado o famigerado “Corralito”, conjunto de medidas do então presidente Fernando de La Rúa, medidas que destruíram a economia argentina. 

Para entendê-lo, há que retroceder uma década. Em 1991, o congresso argentino aprovou lei do então presidente Carlos Saúl Menem que fixava taxa de câmbio do austral à razão de 1:1 e tornava o peso conversível a uma taxa de conversão de dez mil austrais para cada peso. Essas medidas promoveram a tragédia que foi a dolarização da economia argentina.

Voltemos a 2001, mês de dezembro, dia 1°, sábado. De la Rúa e Cavallo aproveitaram o fim de semana para anunciar o desastre, um conjunto de medidas econômicas que visava impedir uma corrida aos bancos e a retirada em massa de depósitos nas contas-corrente e cadernetas de poupança. 

O governo congelou todas as contas bancárias, inicialmente por 90 dias. Apenas 250 pesos eram permitidos para retirada semanal, e apenas de contas em pesos. Não eram permitidos saques de contas em dólares americanos (na maior parte da América do Sul, contas assim são permitidas), a menos que o proprietário concordasse em converter os fundos em pesos.

O país entrou em desespero. As empresas começaram a promover demissões, compromissos pesados deixaram de ser pagos, ninguém tinha dinheiro. Foi parecido com o que ocorreu no confisco da poupança de Collor, mas  muito pior. 

Era uma manhã de segunda-feira. Dois dias antes, em 1° de dezembro de 2001, fora posto em prática o plano Collor argentino, o “Corralito”. Meu desembarque no aeroporto de Ezeiza, rumo a Buenos Aires, foi assustador. A Aerolíneas Argentinas estava em greve e os grevistas se conflagravam com a polícia no saguão. 

Após encontrar um táxi, dirigi-me à avenida Corrientes, onde ficava o três estrelas que consegui achar para não gastar muito enquanto tentava recuperar uma pequena fortuna que importadores locais não tinham como pagar à minha Comercial Exportadora — eu exportava autopeças para América Latina e África. 

Pelas ruas buenairenses, o comércio sendo depredado, carros sendo virados e incendiados… O caos. Um de meus clientes argentinos se matou. Família de classe média alta, dona de uma importadora, alto padrão de vida, viu-se  em ruínas com a decisão de Fernando de la Rúa, que, graças ao antecessor, Carlos Menem, era inevitável. Sem o “Corralito”, o sistema bancário argentino iria à falência. 

Toda essa desgraça decorreu da ideia idiota de Domingo Cavallo, encampada e eternizada por Menen. E Javier Milei, “El Loco”, o Bolsonaro argentino decidiu ressuscitar o pior trauma dos argentinos. É por isso que seu eleitorado é composto, majoritariamente, por jovens, pois não se lembram do que a dolarização do Plano Cavallo fez com o país.

Os argentinos não são desinformados como os brasileiros. Não vão jogar terra na cova em que o neoliberalismo os meteu. Maurício Macri os convenceu uma vez porque parecia sensato. “El Loco”, não; é tão louco quanto parece. E eles sabem. Não será eleito.

❗ Se você tem algum posicionamento a acrescentar nesta matéria ou alguma correção a fazer, entre em contato com redacao@brasil247.com.br.

Cortes 247

Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

Participe da discussão

Ao vivo

Inscreva-se

Cobertura contínua dos principais assuntos do dia.

Hoje na TV 247 1 de Julho
Acompanhe as
últimas notícias